O produtor Rodrigo Pamponet, que cultiva uvas no Vale do São Francisco, já não considera mais o mercado norte-americano como prioridade. Com a nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos, a fazenda dele começou a focar em mercados alternativos, como Europa e Argentina, devido à perda de competitividade.

“A gente costumava exportar bastante para os EUA. Em 2024, a fazenda embarcou cerca de 50 paletes. No ano passado, esse volume caiu para apenas seis, apenas para completar um pedido. Neste ano, a expectativa é de que minhas exportações para lá praticamente zerem, a menos que os importadores americanos aceitem absorver parte do custo adicional das tarifas”, relata Pamponet.

Impacto das novas tarifas no agronegócio

A partir da próxima terça-feira (22), a sobretaxa de 25% entra em vigor para produtos brasileiros que não foram incluídos na lista de exceções dos EUA. Além dessa tarifa, há a possibilidade de uma cobrança adicional de 12,5% em decorrência de uma investigação comercial em andamento, o que pode elevar a sobretaxa total para 37,5%.

As cadeias mais afetadas incluem uvas, ovos, madeira, arroz e açúcar, com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) informando que a medida coloca sob pressão aproximadamente US$ 4,6 bilhões em exportações do agronegócio brasileiro. Segundo a confederação, 36,5% das exportações para os EUA ficarão sujeitas à nova tarifa, enquanto 63,5% foram preservadas.

Redirecionamento das exportações

Para mitigar os impactos das novas tarifas, os produtores têm buscado redirecionar suas exportações. A análise da XP Macro Research aponta que, apesar das dificuldades, os produtores conseguiram compensar a redução das vendas para os EUA com o aumento das exportações para a China e outros mercados, resultando em um recorde histórico de US$ 348,7 bilhões em exportações no ano passado.

O Vale do São Francisco, que representa cerca de 75% da produção nacional de uvas e 95% das exportações brasileiras da fruta, já começou a se adaptar. Pamponet afirma que atualmente, cerca de 70% de sua produção é destinada à União Europeia e 28% à Argentina, com um aumento significativo no volume de uvas enviadas para o mercado argentino, que saltou de 3,6 mil toneladas em 2024 para mais de 8 mil toneladas em 2025.

Embora a Europa continue sendo o principal mercado, o setor se preocupa com a perda do mercado americano, que oferece preços mais altos por produtos de qualidade. O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina, Jailson Lira, destaca que a abertura de novos mercados ajudou a reduzir os impactos, mas a tensão persiste entre os produtores, especialmente em relação ao emprego e à renda na região.

A cadeia da uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos no Vale do São Francisco, e aproximadamente metade da mão de obra é composta por mulheres. Apesar das incertezas, o setor espera uma solução negociada antes de setembro, quando começa a principal janela de embarque de frutas para os EUA.