No dia 14 de agosto de 2018, Claudia Possetti, de 47 anos, estava em um carro com seu novo marido, Andrea, e seus dois filhos, de 12 e 16 anos, quando a ponte Morandi desabou em Gênova. A família, que viajava para a Riviera Italiana após o casamento, foi uma das 43 vítimas do colapso, um dos piores desastres de infraestrutura da Itália nas últimas décadas.

Quase oito anos depois, Egle Possetti, irmã de Claudia, se reunirá com outros parentes em um tribunal de Gênova para ouvir o veredicto de primeira instância no julgamento sobre o colapso da ponte. O pai das crianças, que sobreviveu ao acidente, também deve estar presente. "Estou ansiosa, preocupada, muito emocionada", declarou Egle à BBC. "Depois de tantos anos e tantas audiências, podemos finalmente ver alguma luz. Seria muito importante para nós saber se alguém será responsabilizado."

Investigações e processo judicial

O desabamento da ponte ocorreu durante uma tempestade de verão, quando veículos foram lançados ao chão. O incidente desencadeou anos de investigações sobre como uma estrutura construída nos anos 1960, parte de uma rota vital ligando Gênova à fronteira francesa, pôde falhar. Desde julho de 2022, 57 pessoas estão sendo julgadas, incluindo ex-executivos da operadora de rodovias Autostrade per l'Italia, engenheiros da empresa de manutenção Spea e ex-oficiais do ministério dos transportes. As acusações variam de homicídio culposo a falsificação de documentos, com todos os réus negando qualquer irregularidade.

No cerne do caso está uma divergência fundamental sobre as causas do colapso. Os promotores afirmam que a manutenção foi frequentemente atrasada, apesar dos sinais de alerta ignorados, enquanto os advogados de defesa argumentam que uma falha de projeto no cabo específico que se rompeu foi a verdadeira causa, e que nenhuma rotina de manutenção poderia ter evitado o desastre, uma vez que o cabo estava embutido no concreto.

Expectativas e reações

O julgamento, que já se estende por quase quatro anos e conta com 284 audiências, tem sido criticado por sua duração. Francesco Pinto, ex-procurador-adjunto que atuou no caso, afirmou que o tempo excessivo reflete problemas mais profundos no sistema judiciário italiano e acredita que um recurso e uma decisão final do Supremo Tribunal podem levar outros dois anos e meio. Giovanni Paolo Accinni, defensor do ex-CEO da Atlantia, Giovanni Castellucci, aponta que as longas investigações técnicas pré-julgamento foram um fator que atrasou o processo.

As famílias das vítimas clamam por respostas após tantos anos de incerteza. Egle Possetti, que também representa o comitê das famílias, expressou a esperança de que a responsabilidade seja claramente atribuída. "Por tantos anos, advogados nos disseram que o que aconteceu não foi culpa de ninguém, que foi apenas um acidente. Mas essa decisão pode ser simbolicamente tão importante. Encontrar quem é responsável poderia nos trazer algum tipo de paz e um senso de justiça."

Na véspera do veredicto, a Autostrade per l'Italia emitiu seu primeiro pedido de desculpas pelo desastre em uma carta aberta do CEO Arrigo Giana, publicada em dois jornais italianos. Giana, que assumiu o cargo no ano passado, expressou sua perplexidade sobre a falta de um pedido de desculpas na época, considerando isso uma "ferida incompreensível" para uma comunidade já em choque. Ele destacou que a empresa atual opera sob nova propriedade e gestão, e que fazer reparações agora, mesmo que não possa apagar a dor das famílias, é um dever moral.

Na manhã do desabamento, as estruturas remanescentes da ponte foram demolidas em 2019, e uma nova ponte, projetada pelo arquiteto Renzo Piano, foi inaugurada em agosto de 2020. O novo viaduto, conhecido como Ponte San Giorgio de Gênova, é caracterizado por pilares brancos que evocam a história marítima da cidade. O comitê das famílias das vítimas planeja realizar uma coletiva de imprensa em Gênova na quinta-feira à noite, após a entrega do veredicto.