A prática conhecida como stealthing, que consiste na remoção do preservativo durante a relação sexual sem o consentimento do parceiro, tem se mostrado mais comum do que se imagina. O fenômeno foi discutido em um estudo recente que revela as consequências físicas e emocionais enfrentadas por mulheres que passaram por essa experiência.
Contexto e definição do stealthing
O termo stealthing foi introduzido no debate acadêmico e jurídico internacional pela advogada americana Alexandra Brodsky em 2017, embora já circulasse em comunidades online desde 2014, especialmente entre homens gays. A prática, que tem gerado discussões sobre consentimento e violência sexual, tem sido analisada não apenas como um comportamento de risco, mas como uma violação da autonomia sexual das vítimas.
Consequências da prática
Pesquisas mostram que as consequências do stealthing vão além do risco de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e gravidez indesejada. Relatos de vítimas indicam que elas enfrentam uma série de efeitos psicológicos, incluindo:
- Medo de gravidez e de ISTs;
- Dificuldade em reconhecer a violência sofrida;
- Ansiedade e necessidade de acompanhamento psicológico;
- Perda da autoestima e confiança em futuros relacionamentos.
Um estudo nacional realizado pelo psicólogo Wendell Ferrari, que incluiu 2.275 mulheres adultas, revelou que a maioria das vítimas tinha entre 15 e 29 anos e que uma significativa proporção delas nunca havia ouvido falar do termo stealthing. Dos entrevistados, 77,4% perceberam a retirada do preservativo durante o ato sexual, e 83,6% relataram medo de contrair uma IST ou engravidar.
Desafios e prevenção
Embora não exista uma estratégia infalível para prevenir o stealthing, algumas medidas podem ser tomadas, como discutir previamente o uso do preservativo e interromper a relação ao perceber qualquer indício de violação. Entretanto, Ferrari enfatiza que não é razoável esperar que as mulheres tenham que monitorar continuamente seus parceiros durante a relação sexual.
A prova do stealthing pode ser difícil, pois muitas vezes ocorre em ambientes privados sem testemunhas. No entanto, mensagens que comprovem o acordo sobre o uso do preservativo e registros médicos podem ajudar na denúncia. O Superior Tribunal de Justiça do Brasil já reconheceu que o consentimento não é permanente e que a falta de uma reação física não deve deslegitimar o relato da vítima.
Atualmente, a retirada do preservativo sem consentimento pode ser considerada uma violação sexual mediante fraude, conforme o artigo 215 do Código Penal brasileiro, embora a interpretação da lei dependa das circunstâncias específicas de cada caso.
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