No dia 4 de julho de 1946, a cidade de Kielce, no sul da Polônia, foi palco do mais violento pogrom da história polonesa pós-Segunda Guerra Mundial. Aproximadamente 40 sobreviventes do Holocausto foram atacados, roubados e assassinados por vizinhos, em um episódio marcado por rumores e violência.

O início da violência

Na manhã do fatídico dia, uma multidão enfurecida se reuniu em frente ao que era conhecido como a "Casa Judaica", localizada na Rua Planty, número 7. Este edifício abrigava várias organizações de ajuda a judeus e servia como acolhimento temporário para mais de 150 pessoas que haviam sobrevivido ao regime nazista. Muitos deles tentavam reconstruir suas vidas na Polônia ou planejavam emigrar para a Palestina.

O clima de hostilidade se intensificou quando um boato circulou pela cidade, alegando que judeus haviam sequestrado e assassinado crianças cristãs. A situação se agravou com a intervenção de uma milícia cívica, que, em vez de proteger os refugiados, disparou contra eles e os entregou à multidão sedenta por violência.

Uma mentira infantil e suas consequências

O estopim para a tragédia foi uma mentira criada por um garoto de oito ou nove anos, Henryk Blaszczyk. Para evitar problemas, ele afirmou que havia sido sequestrado por um judeu e mantido em cativeiro. O pai do menino fez um boletim de ocorrência, e o garoto indicou um homem judeu como seu suposto sequestrador, o que levou à escalada da violência.

Após a divulgação do rumor, centenas de trabalhadores da metalúrgica Ludwikow se juntaram ao pogrom, armados com ferramentas. A violência se espalhou rapidamente pela cidade, afetando judeus em estações de trem e em trens. Somente no final da tarde, com a chegada de mais soldados, a matança e as agressões foram contidas.

Mortes e consequências do pogrom

O número exato de mortos é incerto. O Instituto de Memória Nacional da Polônia contabiliza 37 judeus mortos, além de três católicos poloneses que tentaram defender os atacados. Por outro lado, o Museu da História dos Judeus Poloneses, ou POLIN, estima que pelo menos 40 judeus foram assassinados, junto com dois poloneses que tentaram intervir.

O pogrom gerou uma onda de pânico na comunidade judaica, levando cerca de 100 mil pessoas a deixar o país, muitas em direção à Alemanha. Historiadores poloneses afirmam que o que ocorreu em Kielce não foi um evento isolado, mas parte de uma onda de violência anti-judaica que ocorreu após a libertação do país dos nazistas.

Após o pogrom, as autoridades polonesas tentaram recuperar o controle, realizando um julgamento rápido que resultou na condenação e execução de nove indivíduos. Durante anos, o massacre foi um tema tabu, censurado pelo regime comunista, mas investigações recentes não encontraram evidências de que o pogrom foi orquestrado por agências de inteligência comunistas, considerando-o uma reação espontânea da multidão.