No dia 4 de julho, Ruanda celebra o Dia da Libertação, um marco que recorda a vitória militar do Frente Patriótico Ruandense (FPR), liderado pelo presidente Paul Kagame, que pôs fim ao genocídio de 1994. Para muitos jovens, essa data simboliza tanto o passado doloroso quanto as esperanças para o futuro.

Claudette Kamikazi, proprietária de uma loja de souvenirs em Kigali, observa o crescimento do turismo no país, mas também sente os efeitos da história que moldou sua vida. Nascida após o genocídio, ela descreve como a tragédia ainda ressoa em sua existência. "Meu pai está preso desde que eu era pequena. Minha mãe, que sobreviveu ao genocídio, criou meus irmãos e eu. A história do que aconteceu em meu país me acompanha todos os dias", afirmou Kamikazi.

Significados variados do conceito de libertação

A recuperação de Ruanda, sob a liderança de Kagame desde 2000, é vista como um projeto nacional de longo prazo, que abrange unidade e transformação econômica. O país experimentou um crescimento econômico médio de 7% ao ano na última década, impulsionado por setores como turismo e tecnologia. Com mais de 65% da população composta por jovens, espera-se que essa geração continue a construir o futuro do país.

No entanto, nem todos sentem os benefícios desse progresso. Christopher Teganya, de 26 anos e recentemente graduado, expressa sua preocupação: "A libertação foi um grande começo, mas o governo precisa fazer mais. Celebramos o Dia da Libertação, mas tudo perde o sentido se não vemos um futuro".

Promessas não cumpridas e desafios persistentes

Embora Ruanda tenha mudado drasticamente nos últimos 30 anos, com investimentos em infraestrutura e turismo, a criação de empregos para os jovens continua sendo um desafio. A taxa de desemprego juvenil é de cerca de 14%, conforme apontado por pesquisas governamentais. Teganya critica a promessa de criar 200 mil empregos anuais, feita pelo FPR durante a campanha eleitoral de 2024, que resultou na reeleição de Kagame com mais de 99% dos votos.

Além disso, a transformação do país atraiu críticas de grupos de direitos humanos, que apontam restrições à oposição política e à liberdade de expressão. O julgamento da líder da oposição, Victoire Ingabire, continua a dividir opiniões.

Sabrine Gatesi, uma enfermeira de 30 anos, destaca que a recuperação de Ruanda não pode ser medida apenas pelo que foi reconstruído, mas também pelas cicatrizes emocionais que muitos ainda carregam. "A libertação é mais sobre curar feridas invisíveis, que vivemos todos os dias", comentou Gatesi, mencionando que um em cada cinco ruandeses lida com transtornos mentais.

Com a liberação gradual de prisioneiros condenados pelo genocídio, Kamikazi espera a volta de seu pai ainda este ano. Para ela, a libertação é um conceito que transcende um único dia: "É um passado triste e uma esperança vibrante por um futuro melhor", concluiu.