Djalba Lima Há fotografias que contam mais do que livros inteiros. Em novembro de 1966, num apartamento de Lisboa, dois homens apertaram as mãos diante das câmeras. Durante mais de uma década haviam sido inimigos inconciliáveis.
Um chamara o outro de irresponsável, corrupto e aventureiro. O outro respondera com igual contundência. Representavam projetos de país aparentemente incompatíveis.
Naquele dia, porém, Carlos Frederico Werneck de Lacerda e Juscelino Kubitschek de Oliveira não falavam mais do passado. Falavam do futuro. Poucos meses depois, um terceiro personagem se juntaria à improvável aliança: João Belchior Marques Goulart, o presidente deposto pelo golpe de 1964 – o homem cuja queda Lacerda ajudara decisivamente a construir.
O autoritarismo raramente se contenta em destruir apenas seus inimigos. Mais cedo ou mais tarde, volta-se também contra aqueles que imaginaram poder controlá-lo A fotografia parecia impossível, mas era real. Talvez nenhuma imagem explique melhor o que se passava no Brasil.
Não era apenas uma aliança entre antigos adversários. Era o primeiro grande sinal de que a própria coalizão civil que apoiara o golpe começava a se desfazer. A história consagrou aquele movimento com um nome discreto: Frente Ampla.
Talvez exista outro, mais revelador: a Frente dos Arrependidos. Não porque todos tivessem cometido o mesmo erro. Por óbvio, João Goulart não apoiou o golpe que o derrubou.
Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek em Lisboa, 1966: ferrenhos adversários no passado, aliados em defesa da democracia | Foto: Reprodução Mas porque a Frente simbolizou um momento raro da política: aquele em que homens separados por décadas de antagonismo compreenderam que a democracia se tornara maior do que suas diferenças? E porque dois de seus principais protagonistas descobriram, tarde demais, uma verdade recorrente da história: o autoritarismo raramente se contenta em destruir apenas seus inimigos. Mais cedo ou mais tarde, volta-se também contra aqueles que imaginaram poder controlá-lo.
O erro de Carlos Lacerda A história brasileira talvez nunca tenha produzido personagem mais paradoxal. Carlos Lacerda foi, ao mesmo tempo, um dos maiores tribunos da democracia liberal e um dos principais responsáveis por enfraquecê-la. Combatendo sucessivamente Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, ajudou a criar um ambiente político em que a ruptura institucional passou a parecer aceitável.
Apoiou a intervenção militar, acreditando que ela seria breve. Imaginou eleições e a possibilidade de disputar a Presidência. Imaginou controlar o processo.
Errou em todas as hipóteses. Costa Silva, linha dura, e Castello Branco, da moderada Sorbonne: Lacerda deixara de ser aliado | Foto: Reprodução Quando o governo do marechal Humberto Alencar Castello Branco, o primeiro presidente militar, prorrogou mandatos, extinguiu partidos, cancelou eleições e passou a legislar por atos institucionais, Lacerda compreendeu que “sua revolução” deixara de ser uma transição. Transformara-se numa ditadura.
Anos depois faria uma das confissões mais impressionantes da política brasileira: “Tenho o dever de mobilizar o povo para corrigir esse erro do qual participei”.
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