Uma corte de apelações dos Estados Unidos decidiu que o Departamento de Imigração e Controle de Fronteiras (ICE) não pode manter indivíduos detidos por mais de 90 dias sem oferecer a oportunidade de uma audiência de fiança. A decisão, tomada na quinta-feira por um painel dividido de 2 a 1 da 5ª Corte de Apelações, com sede em Nova Orleans, pode ter impacto em milhares de imigrantes detidos em estados sob sua jurisdição, como Texas e Louisiana, em decorrência da política de detenção em massa da administração Trump.
Essa decisão é um desdobramento de uma interpretação anterior da mesma corte, que tinha sido a primeira no país a apoiar a visão da administração Trump sobre um estatuto federal de imigração, permitindo a detenção obrigatória de não cidadãos que residem nos Estados Unidos. Contudo, a decisão de fevereiro não abordou se as proteções do devido processo, conforme estabelecido pela Quinta Emenda da Constituição dos EUA, garantem que os migrantes tenham a oportunidade de buscar a liberdade por meio de uma audiência com um juiz de imigração.
Direitos constitucionais em foco
O juiz do circuito dos EUA, Leslie Southwick, que escreveu a opinião da maioria, destacou que a Suprema Corte dos EUA deixou claro em 2001 que a cláusula de devido processo protege todos, incluindo os dois cidadãos mexicanos e um hondurenho cujos casos estavam sob análise da 5ª Corte. Southwick afirmou: "É parte da majestade histórica desta carta fundadora que não faz exceções ao fornecer direitos básicos àqueles que estão dentro de nossas fronteiras, incluindo o direito de ser ouvido quando a liberdade pessoal é retirada".
O juiz do circuito dos EUA, Cory Wilson, que foi indicado por Trump, apresentou uma opinião divergente, argumentando que "a maioria marginaliza a concessão expressa da Constituição de autoridade plena sobre questões de imigração ao Congresso". Essa discordância ilustra as tensões em torno da interpretação das leis de imigração e dos direitos dos detidos.
Impacto da decisão e reações
Rebecca Cassler, advogada dos migrantes na American Immigration Council, expressou satisfação com a decisão, afirmando que "estamos encantados que o painel reconheceu o princípio constitucional fundamental de que a cláusula de devido processo não permite que o governo os mantenha trancados indefinidamente".
O Departamento de Segurança Interna dos EUA, responsável pelo ICE, não respondeu a um pedido de comentário sobre a decisão. A legislação de imigração federal determina que "candidatos à admissão" nos Estados Unidos estão sujeitos a detenção obrigatória enquanto seus casos são analisados nos tribunais de imigração, sem direito a audiências de fiança.
Desafiando uma interpretação de longa data das leis de imigração, o Departamento de Segurança Interna adotou no ano passado a posição de que não cidadãos já residentes nos EUA também se qualificam como "candidatos à admissão" e, portanto, estão sujeitos a detenção obrigatória. Em setembro, o Conselho de Apelações de Imigração, parte do Departamento de Justiça, endossou essa interpretação, levando juízes de imigração a ordenar detenção obrigatória em todo o país.
A divisão entre os tribunais de apelações federais sobre essa interpretação da lei levou a administração Trump a solicitar à Suprema Corte que resolva a questão.
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