Um surto do vírus Ebola na África Central foi intensificado pela diminuição do apoio financeiro dos Estados Unidos e de outros países ocidentais, conforme afirmam especialistas, um ano após a redução das operações de ajuda internacional por parte de Washington.
No mês de maio, autoridades da República Democrática do Congo (RDC) e de Uganda confirmaram surtos após testes laboratoriais identificarem a propagação do vírus Bundibugyo, causador de uma forma da doença Ebola. A contaminação ocorre por meio do contato com fluidos corporais infectados, animais selvagens e objetos ou carnes contaminadas. A doença, embora rara, apresenta uma taxa de letalidade em torno de 50%.
Dados preocupantes sobre o surto atual
Este é o 17º surto registrado na RDC, com mais de 1.400 casos confirmados até o momento, tornando-se o terceiro maior surto já documentado, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC). Até agora, não foram relatados casos nos EUA, mas um caso foi confirmado na França. Os dados mais recentes do CDC indicam 440 mortes confirmadas pela doença.
Logo no início do surto, o Comitê Internacional de Resgate, uma organização não governamental focada em ajuda humanitária, alertou que a atual epidemia poderia se tornar a mais letal da história sem intervenção urgente. Bob Kitchen, vice-presidente de emergências do IRC, destacou que a RDC enfrenta a epidemia atual em uma situação “mais frágil e menos preparada” em comparação ao surto de 2018-2020, que resultou em mais de 2.000 mortes.
Impacto das reduções de financiamento
As cortes nos programas de ajuda externa não são exclusividade dos EUA. Um relatório da Oxfam indicou que os países do G7, que representam cerca de 75% da assistência oficial ao desenvolvimento, planejam reduzir seus gastos com ajuda em 28% até 2026 em comparação aos níveis de 2024. Além disso, uma análise recente do Instituto de Saúde Global de Barcelona revelou que a ajuda externa da França deve cair cerca de um terço desde 2023, enquanto a da Alemanha deve diminuir mais de 36% e a do Reino Unido em 45% em relação aos níveis recentes.
A virologista Angela Rasmussen, que atua em um grupo ativista, afirmou que os cortes na ajuda externa agravaram a crise do Ebola na região. A redução de infraestrutura crítica anteriormente financiada pela USAID contribuiu para um aumento da violência e diminuição da capacidade de resposta na área afetada pelo surto.
Desde o início de 2025, confrontos entre as autoridades congolezas e grupos rebeldes, como o M23, resultaram na captura de Goma, uma cidade estratégica na fronteira com Ruanda, intensificando a violência política no país. O Conselho de Relações Exteriores classifica a situação na RDC como uma das maiores e mais letais crises humanitárias do mundo, com 1 milhão de congoleses buscando refúgio no exterior e 21 milhões necessitando urgentemente de ajuda, incluindo assistência médica.
Rasmussen também destacou que a falta de infraestrutura de cadeia de frio financiada pela USAID comprometeu a qualidade das amostras de teste, atrasando a detecção do vírus. Jade Le, especialista em doenças infecciosas, corroborou a opinião de que os cortes na ajuda externa tornaram o surto mais difícil de controlar, afirmando que a USAID desempenhava um papel crucial na construção da infraestrutura de saúde na RDC.
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