AdobeStock Um paciente entra em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e faz uma coleta de rotina para descobrir se carrega, no intestino, uma das bactérias mais temidas da medicina. Pelo método tradicional, a resposta leva de dois a três dias. Durante a espera, ele fica isolado por precaução —ocupa um leito reservado, consome aventais e luvas— antes que a equipe saiba se o cuidado extra é mesmo necessário.

E, se for portador, pode transmitir a bactéria em silêncio a outros pacientes vulneráveis nesse intervalo. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) desenvolveram e validaram uma estratégia que comprime essa espera para seis horas. O trabalho, reunido em quatro estudos publicados em três periódicos científicos internacionais, mostra que um teste rápido de baixo custo —parecido com os de farmácia para Covid-19 ou gravidez— consegue apontar quem carrega esses microrganismos e cortar até 60 horas do diagnóstico convencional.

A ressalva que os próprios autores fazem questão de sublinhar é que essa velocidade não se converte automaticamente em menos contágio. Agora no g1 As ‘superbactérias’ e por que assustam As chamadas Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos (ERC) não são uma única bactéria, mas um grupo de micróbios intestinais comuns —como a Klebsiella pneumoniae e a Escherichia coli— que se tornaram resistentes aos carbapenêmicos, antibióticos reservados para as infecções mais graves. A Organização Mundial da Saúde (OMS) as classifica como ameaça de prioridade crítica à saúde humana.

Quando uma dessas bactérias deixa de apenas habitar o intestino e invade a corrente sanguínea, o pulmão ou o trato urinário de um paciente grave, as opções de tratamento encolhem. O resultado é um atraso no início da terapia eficaz, internações mais longas e um risco de morte que dispara. No Brasil, entre casos de sepse com confirmação laboratorial, infecções por ERC foram associadas a uma mortalidade de 63,8%, ante 33,4% nas sepses causadas por outras bactérias.

O infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da FMUSP e um dos autores dos estudos, explica que a resistência bacteriana —somadas todas as bactérias resistentes— esteve associada a mais de 4,7 milhões de mortes no mundo em 2021, segundo estimativa da OMS. Nas infecções mais graves por ERC, como as da corrente sanguínea, a letalidade costuma variar de 30% a 50%, conforme o perfil do paciente e a rapidez do tratamento adequado. Colonizado não é o mesmo que infectado Boa parte das pessoas que carregam a bactéria não apresenta sintoma algum —é o que a medicina chama de colonização.

O micróbio está presente, em geral no intestino, mas não provoca doença, e o paciente colonizado não precisa necessariamente de antibiótico. O quadro muda quando esse paciente está internado e, sobretudo, quando está gravemente doente, imunossuprimido ou depende de dispositivos invasivos, como cateter venoso, sonda urinária ou ventilação mecânica. Nessas condições, a mesma bactéria que apenas convivia com o organismo pode causar uma infecção.

E pode ainda passar de um paciente a outro —pelas mãos dos profissionais de saúde, por equipamentos ou pelo próprio ambiente hospitalar.