A medicina nos Estados Unidos realiza mais de 14 bilhões de testes anualmente. Embora alguns deles sejam cruciais para salvar vidas, muitos são aplicados em momentos inadequados ou em pacientes errados, tornando-se inúteis ou até prejudiciais.
O setor médico tem investido consideravelmente em desenvolver testes mais avançados, mas pouco tem sido feito para aprender a utilizá-los de forma correta. Existe uma ciência chamada stewardship diagnóstica que busca otimizar o uso dos testes, mas a maioria dos médicos desconhece essa abordagem.
Consequências do uso inadequado de testes
Como médico especialista em doenças infecciosas, testemunho diariamente a má utilização de testes. Um exemplo frequente é o uso excessivo de culturas de urina. Após um resultado positivo, pacientes sem sintomas de infecção do trato urinário (ITU) muitas vezes recebem antibióticos desnecessários, que podem ser prejudiciais. Com o avanço da idade e o surgimento de doenças crônicas, é comum que bactérias cresçam na urina sem causar problemas. O uso inadequado de antibióticos contribui para um risco maior: a resistência a antibióticos, que pode impedir a eficácia de tratamentos quando realmente necessários.
Resultados de um estudo em Michigan
Um projeto de pesquisa realizado em Michigan em 46 hospitais buscou solucionar esse problema. Embora a educação inicial dos médicos não tenha surtido efeito, a implementação de stewardship diagnóstica se mostrou eficaz. A estratégia consistiu em exigir que os médicos inserissem sintomas reais de ITU para solicitar uma cultura de urina ou que o laboratório realizasse as culturas apenas quando houvesse evidência de inflamação na amostra. Os resultados mostraram uma redução de cerca de 29% dos pacientes com cultura positiva sendo tratados desnecessariamente para menos de 17%.
Essa experiência em Michigan evidencia uma questão estrutural. A stewardship diagnóstica funciona porque a intervenção ocorre em um ponto central — como a alteração na forma como os testes são solicitados nos registros médicos eletrônicos ou a realização dos testes na ordem correta. Mudanças simples podem impactar centenas de milhares de pacientes dentro de um sistema.
Além das culturas de urina, a stewardship diagnóstica também se aplica a testes mais caros, como os moleculares para influenza ou Covid, testes genéticos e tomografias computadorizadas. Embora essas tecnologias sejam inovadoras, ainda requerem uma gestão adequada para evitar resultados confusos ou prejudiciais.
Além disso, a inteligência artificial (IA) também herda o problema do uso excessivo de testes. Pesquisadores da Microsoft demonstraram que os princípios da stewardship diagnóstica devem ser incorporados nos sistemas de IA desde o início, e não como uma adaptação posterior.
É fundamental exigir melhorias na medicina. A remuneração dos médicos deve incentivar a gestão diagnóstica e penalizar testes indiscriminados. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) já convocou hospitais a implementarem programas de stewardship diagnóstica, embora careçam de uma liderança confirmada para promover essas iniciativas.
Pacientes que desenvolvem infecções resistentes devido a antibióticos desnecessários, aqueles cujas cirurgias são adiadas ou que são submetidos a intervenções após um falso alarme de tomografia não necessitam de novos medicamentos ou equipamentos. Eles precisam de um sistema mais eficiente. Temos a ciência para aprimorar os testes e diagnósticos; agora, precisamos da vontade de aplicá-la.
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