Umbu Ana Rara (à esquerda), um maramba (nobre), observando seu ata (escravo), Kanisius Kanyali Hambarita, preparar bebidas na vila de Tanggedu, em Sumba Bay Ismoyo/AFP A duas horas de avião das praias de Bali, na ilha de Sumba, homens e mulheres vivem como escravizados do nascimento à morte, de geração em geração, devido ao peso da "tradição". Eles trabalham para seus senhores sem receber salário e passam de uns para os outros como herança. Às vezes sofrem maus-tratos e, no caso das mulheres, algumas são vítimas de estupro.
Os filhos deles sofrerão o mesmo destino, pois essa condição "não pode ser apagada", afirma Kanisius Kanyali Hambarita. Kanisius Kanyali Hambarita, de 34 anos, é escravizado por Umbu Ana Rara, três anos mais novo que ele. Para chegar onde vivem, na aldeia de Tengeddu é preciso percorrer uma estrada esburacada que serpenteia entre o mar e as colinas áridas, a 50 km de Waingapu, a principal cidade de Sumba.
A região é conhecida por cachoeiras espetaculares. Ao longo do caminho, avistam-se cabras, vacas e até mesmo manadas de cavalos selvagens. Em uma manhã de junho, os dois homens mascam noz de betel, conhecida por seus efeitos eufóricos, sentados em frente à casa do senhor, com seu típico telhado em forma de cone.
À primeira vista, nada os distingue. Eles vestem camisetas e sarongues, moram na mesma casa, onde criam galinhas e porcos e cozinham com lenha. Ambos dormem no mesmo tipo de esteira no chão e nenhum dos dois tem sinal de celular.
Umbu Ana Rara diz que trata seu escravizado "como um membro da família". Ele permite que o escravizado ganhe um pouco de dinheiro como mototaxista e lhe confia um pedaço de terra que ele cultiva para seu próprio sustento. O que pensa Kanisius?
"Não me oponho a isso, é assim que as coisas são. Não é um fardo. Não é nada mais do que o símbolo de uma tradição herdada de nossos ancestrais", diz à AFP diante do senhor dele, que muitas vezes completa suas frases.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Umbu Ana Rara (à esquerda), um maramba (nobre), observando seu ata (escravo), Kanisius Kanyali Hambarita, na vila de Tanggedu, em Sumba Bay Ismoyo/AFP Na ilha, a escravidão remonta ao século XVI, segundo historiadores. A Indonésia a aboliu oficialmente em 1860, quando o país estava sob domínio holandês, mas ela permanece profundamente enraizada na cultura de Sumba, especialmente no leste. A ilha tem 685.000 habitantes, dos quais 80% são cristãos em um país predominantemente muçulmano.
A sociedade está dividida em três castas: "os nobres, chamados maramba, geralmente grandes proprietários de terras; o povo comum, chamado kabihu; e os escravizados ou servos, os atas", explica Martha Hebi, especialista no assunto. A menos que seja libertado pelo senhor, o escravizado "não pode perder sua condição, nem mesmo por meio do casamento", acrescenta ela. Os marambas são donos da terra, do gado e dos cavalos que criam para corridas antes de exportá-los.
Estes, juntamente com os escravizados, constituem sua principal renda. Os atas trabalham da manhã à noite, cultivando os campos, que aram com búfalos d'água, e cuidando da casa, das crianças e dos animais.
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