Russos estão optando pelo uso de dinheiro em espécie, diante de interrupções na internet móvel que afetam pagamentos com cartão e da crescente pressão fiscal, mais de quatro anos após o início da guerra na Ucrânia.

Desde o início de 2023, a Rússia injetou 1,56 trilhões de rublos (equivalente a £14,8 bilhões ou $20 bilhões) em circulação, conforme dados do Banco Central analisados pela BBC. Esse aumento representa a maior elevação para o período em questão, excluindo os impactos da pandemia de Covid-19.

A mudança no comportamento financeiro dos russos ocorre em meio a uma série de ataques de drones ucranianos, que levaram o Kremlin a desligar a internet móvel em grandes áreas do país, dificultando o pagamento por cartão. O governo afirma que o objetivo dessas interrupções é combater os ataques aéreos.

Uma moradora de Moscou, que preferiu permanecer anônima, comentou: "Ter dinheiro em mãos traz uma sensação de controle e segurança. Se houver uma emergência na cidade, sei que ainda poderei comprar necessidades básicas, mesmo se a rede móvel cair."

Esse aumento no uso de dinheiro segue outras ondas de retiradas durante o período de guerra, quando os russos buscaram se proteger contra a incerteza econômica. A circulação de dinheiro disparou após o anúncio da mobilização parcial pelo presidente Vladimir Putin em setembro de 2022 e durante a breve rebelião do grupo mercenário Wagner em junho de 2023.

Aumento da evasão fiscal

O crescente uso de dinheiro em espécie está dificultando a arrecadação de impostos pelo estado, que já enfrenta um déficit orçamentário crescente e precisa de cada rublos para financiar a guerra na Ucrânia. Apesar do setor de petróleo e gás da Rússia, que representa cerca de um quarto da receita estatal, ter se beneficiado com o aumento recente dos preços do petróleo, a economia mais ampla está desacelerando.

Em maio, o ministério da economia russo revisou a previsão de crescimento do PIB para 0,4% em 2026, indicando que o país está a caminho de seu crescimento econômico mais fraco desde 2022. Para aumentar a arrecadação, o Kremlin elevou o imposto sobre valor agregado (IVA) de 20% para 22% em janeiro e reduziu o limite para pequenas e médias empresas, levando muitas a uma situação financeira crítica.

Impacto nas pequenas empresas

Com as margens reduzidas por impostos mais altos e uma economia em desaceleração, farmácias, restaurantes, salões de beleza e pequenos comércios estão cada vez mais incentivando pagamentos em dinheiro para manter uma parte maior da receita fora dos livros fiscais. Uma proprietária de uma loja de roupas em um mercado na cidade de Pskov relatou: "As barracas do nosso mercado estão fechando uma após a outra porque não é mais lucrativo ficar aberto."

Taras Skvortsov, diretor financeiro do Sberbank, o maior banco da Rússia, alertou que há "sinais muito sérios" de que mais empresas estão pagando salários "em envelope" para evitar impostos. "Este é um momento muito preocupante... Não estamos vendo o dinheiro voltar ao sistema bancário por meio de coleta de dinheiro, caixas eletrônicos ou terminais de autoatendimento", afirmou Skvortsov, em comentários citados pela agência de notícias estatal Interfax.