“Ninguém passa por aquela estrada, a não ser que tenha se perdido ou seja idiota”. Assim é descrito, mais de uma vez e em tom de provocação ao longo do filme de Martin McDonagh, o lugar em que Mildred Hayes (Frances McDormand), uma mulher dura e marcada pelos sofrimentos da vida, resolve agir. Cansada de ver sua tragédia familiar ignorada pela polícia local, ela aluga três outdoors de madeira que, em tese, não deveriam influenciar a vida de ninguém, mas acabam colocando de ponta-cabeça o cotidiano dos habitantes da pequena cidade de Ebbing, no Missouri.

Lançado em 2018, ‘Três Anúncios para um Crime’, ou, no original, ‘Three Billboards Outside Ebbing, Missouri’, não apenas foi amplamente aclamado pela crítica e pelo público, como também rendeu a Frances McDormand o Oscar de Melhor Atriz. E com absoluta justiça. No filme de Martin McDonagh, Frances McDormand dá vida a uma das personagens mais brilhantes e marcantes do cinema neste século.

Mildred é divorciada, vive com o filho adolescente e convive diariamente com a dor devastadora de ter perdido a filha da forma mais atroz possível: a jovem Angela foi estuprada, assassinada e teve o corpo carbonizado. O criminoso nunca foi encontrado, sequer identificado. Exausta da negligência policial, Mildred aluga os outdoors e expõe ao mundo aquilo que cansou de cobrar na delegacia da cidade, citando nominalmente o chefe da polícia de Ebbing: “E então, chefe Willoughby?

Nada de prisões? Ela foi morta enquanto era estuprada”. Esses dizeres, estampados em caixa alta em uma estrada pela qual ninguém passa, “a não ser que tenha se perdido ou seja idiota”, quebram a rotina pacífica da cidadezinha e parecem provocar mais espanto e indignação do que a própria morte de Angela.

Mildred declara guerra não apenas à polícia, mas também à paz produzida pelo conformismo em um ambiente onde a lei do “é melhor deixar pra lá” impera. Cena do filme ‘Três anúncios para um crime’, de Martin McDonagh | Foto: Reprodução Escandalizados, personagens que antes eram apenas figuras do cotidiano de Mildred, como policiais, padres e dentistas, passam a ser peças de um grande xadrez psicológico. Tudo se transforma em um jogo de pressão que busca responder a uma única pergunta: até onde ela conseguirá levar essa estratégia?

O desenvolvimento dos personagens centrais da trama é impecável, especialmente o do oficial Dixon, interpretado brilhantemente por Sam Rockwell. Dixon é um policial racista e negligente, fruto de um sistema que parece ser quase uma regra, sobretudo em cidades pequenas como aquela em que a história se passa. Ao longo do filme, amamos odiá-lo e, depois, odiamos amá-lo.

Rockwell constrói um homem ensinado a odiar, mas que acaba desempenhando um papel decisivo na jornada de Mildred. O humor ácido de ‘Três Anúncios para um Crime’ é irretocável. Cada diálogo e cada interação carregam, nas entrelinhas, os detalhes de uma cidade pacata que vive às custas de fofocas, conformismo e tradicionalismo.

A cena em que Mildred pergunta a Dixon se a mãe dele não sabia que ele torturava pessoas negras, ao que o policial responde com sinceridade “O certo é ‘pessoas de cor’ hoje em dia!”, é de uma genialidade cada vez mais rara no cinema contemporâneo.