Um pai foi preso em Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, após ser flagrado chutando a filha de apenas três anos. O incidente, que ocorreu no último domingo (5), foi registrado por câmeras de segurança e gerou repercussão nas redes sociais.

Segundo a Polícia Civil, o homem, que não teve a identidade divulgada, alegou em depoimento que agrediu a criança porque ela estava chorando. A prisão preventiva do suspeito foi realizada nesta quinta-feira (9), após a investigação revelar um histórico de agressões contra as crianças que conviviam com ele, incluindo a filha e um enteado de cinco anos.

Choro infantil como expressão emocional

A discussão sobre o choro infantil e suas implicações emocionais ganhou destaque após o ocorrido. A doutora Juliana Prates, especialista em Estudos da Criança e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que o choro é uma ferramenta que as crianças utilizam para expressar insatisfação e angústia quando ainda não possuem um repertório verbal adequado.

“As crianças muitas vezes não têm a capacidade de regulação emocional que não seja através do choro. Isso é frequentemente interpretado como comportamento inadequado ou birra pelos adultos”, afirma Prates. Ela ressalta que a sociedade tende a responsabilizar os cuidadores pela regulação do comportamento infantil, o que pode levar a reações extremas como a agressão.

Violência contra crianças e a responsabilidade social

Uma pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e pelo Datafolha revelou que 29% dos entrevistados admitiram ter utilizado práticas violentas, como palmadas, em crianças de até três anos. Além disso, 58% afirmaram que colocam as crianças de castigo e 43% relataram gritar ou brigar como forma de disciplina.

Juliana Prates enfatiza a importância de uma mudança cultural na forma como a sociedade percebe o comportamento infantil. “É fundamental que a sociedade reconheça que as crianças têm direitos e sentimentos, e que a intervenção em casos de violência deve ser uma responsabilidade coletiva”, defende a especialista.

Após o incidente, o empresário José Fernandes interveio ao testemunhar a agressão. Prates destaca que ações como essa devem ser encorajadas, pois o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a proteção das crianças é uma responsabilidade compartilhada entre a família, a sociedade e o Estado.

A Polícia Civil também formalizou pedidos de medidas protetivas de urgência em favor da criança agredida, do irmão e da mãe que fez a denúncia. O caso segue sob acompanhamento do Conselho Tutelar.