A Polônia pode reduzir o auxílio militar à Ucrânia, em meio a uma crise nas relações bilaterais, acentuada pela recente concessão do título de "Heróis da UPA" a uma unidade militar ucraniana pelo presidente Volodymyr Zelenskyy. As iniciais UPA referem-se ao Exército Insurgente Ucraniano, que foi responsável pela morte de até 100 mil civis poloneses durante a Segunda Guerra Mundial. O país europeu celebra neste sábado um dia nacional em memória das vítimas.

Desde a invasão em grande escala da Rússia em 2022, a Polônia tem fornecido um suporte militar substancial à Ucrânia, incluindo armas e equipamentos. A cooperação militar entre os dois países, que compartilham a visão da Rússia como uma ameaça existencial, era amplamente aceita por todos os partidos políticos e mantida separada das disputas políticas internas da Polônia.

Críticas internas e tensões políticas

A oposição de extrema direita da Polônia tem atacado o governo de centro-direita pela entrega de mísseis interceptores Patriot à Ucrânia, acusando o primeiro-ministro pro-UE, Donald Tusk, de comprometer a defesa militar do país. O presidente polonês Karol Nawrocki e Zelenskyy tentaram encontrar uma solução para a crise durante a cúpula da OTAN em Ancara, mas sem sucesso. "Houve muita tensão nas relações polono-ucranianas recentemente", disse Nawrocki após a reunião, acrescentando que as questões históricas não foram resolvidas. A glorificação da UPA é "inegociável", afirmou.

A disputa acerca dos mísseis Patriot começou com Krzysztof Bosak, líder do movimento nacionalista ultraconservador. Em uma postagem no X, ele alegou que o governo havia transferido mísseis interceptores caros e difíceis de obter sem o conhecimento do Sejm, o parlamento polonês. Bosak argumentou que essas armas eram necessárias para a defesa nacional da Polônia contra a Rússia. O movimento nacionalista há tempos pede o fim da ajuda militar à Ucrânia.

Tensões crescentes e consequências na assistência militar

Marcin Przydacz, ex-vice-ministro das Relações Exteriores, que agora é responsável pela política externa no escritório do presidente, considerou "altamente provável" a suposição de Bosak. Ele acusou o governo de abrir mão da posição da Polônia na fila por pedidos de armas dos EUA em favor da Ucrânia, afirmando que os poloneses terão que esperar mais. Przemyslaw Czarnek, potencial candidato do partido conservador Lei e Justiça nas eleições parlamentares de 2027, também criticou o governo, afirmando que a Polônia foi "privada de armas estratégicas sem o conhecimento do parlamento e do presidente".

A decisão de entregar mísseis interceptores PAC-3 foi feita a pedido do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, e do comandante das forças dos EUA na Europa, Alexus Grynkewich. O ministro da Defesa, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, garantiu que a defesa aérea da Polônia não foi comprometida e que Nawrocki foi informado detalhadamente sobre o plano. Entretanto, a situação atual tem gerado um paradoxo: antes, governo e oposição competiam sobre quem mais tinha ajudado a Ucrânia, mas agora ambos se acusam de ter fornecido armas em excesso.

A deterioração das relações entre Polônia e Ucrânia também afeta um acordo de troca de armas. O governo polonês havia prometido entregar caças MiG à Ucrânia no final de 2025, em troca de tecnologia moderna de drones. No entanto, a Ucrânia exigiu que a Polônia modernizasse os jatos antes da execução do acordo, o que Varsóvia recusou, embora Kosiniak-Kamysz tenha afirmado que o acordo ainda não está definitivamente descartado.

Na quarta-feira, o Parlamento Europeu adotou uma resolução classificando a honraria de Zelenskyy à UPA como uma escalada desnecessária e não provocada na disputa entre os vizinhos, pedindo que ambos os países retomassem o processo de reconciliação. Nawrocki reagiu ao honraria retirando de Zelenskyy a Ordem do Águia Branca, a mais alta condecoração da Polônia. Zelenskyy devolveu a condecoração e, a pedido dele, o parlamento ucraniano aprovou uma lei para estabelecer um Panteão Nacional, que visa honrar figuras históricas e militares consideradas heróis, incluindo unidades associadas à UPA.

Em 11 de julho, a Polônia recorda o massacre da Volínia, quando a UPA atacou vilarejos de maioria polonesa a partir de fevereiro de 1943. O dia 11 de julho de 1943 é lembrado pelos poloneses como o "Domingo Sangrento", quando 99 locais foram atacados. Kyrylo Budanov, chefe de gabinete de Zelenskyy, prevê que as tensões com a Polônia devem aumentar em torno do aniversário, afirmando que "esse pico certamente ocorrerá em breve".