Lembro-me que, na Escola Gercina Borges Teixeira, na qual cursei o primário — em Porangatu, no Norte de Goiás —, ouvi, pela primeira vez, a palavra “moreno”. Dirigida a mim. Até então, eu não sabia do que se tratava.
Ao voltar para casa, perguntei ao meu pai, Raul, e à minha mãe, a professora Frutuoza (Zinha): “O que é ‘moreno’? Sou ‘moreno’?” Os dois ficaram intrigados e, antes de responder, quiseram saber as razões da indagação. Contei que um colega, branco, havia dito que eu era “moreno”.
Desde aquele dia, ganhei o carimbo de “moreno”, o que, atesto, não me incomodou. Logo esqueci da história e aceitei que era mesmo “moreno”, o que acabou “confirmado” pelos meus pais. A minha família era assim: pai branco, de olhos verdes, e mãe “parda”, de olhos escuros.
Raul, descendente de sírio-libaneses, segundo a história familiar. Minha bisavó materna, Frutuoza Martins da Cunha, era negra. Lembro-me de, menino, descaroçar algodão e cardar para ela fiar.
Era um prazer conviver com Tuosa, que eu chamava de avó, notadamente porque minha avó materna, Margarida, havia morrido, de câncer no útero, no mesmo ano em que nasci, em 1961. Tuosa é a avó que conheci e eu amava, assim como amava seu filho Pedro, irmão de Margarida, que eu chamava de avô. Nós, os cinco meninos, sabíamos que éramos pardos — “morenos”, na época —, mas, por termos cabelos louros, principalmente Eliane (ela ficava irritada quando ouvia a música “Cabelo loiro, vai lá em casa passear/ Vai, vai, cabelo loiro/ Vai acabar de me matar”), éramos vistos, por vezes, como “brancos”.
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