Jão se alimenta do cotidiano da relação afetiva com o parceiro Pedro Tófani ao compor a maioria das canções do álbum 'Memórias póstumas' Hugo Comte / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Memórias póstumas Artista: Jão Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ Esse moço está diferente. Esqueça o Jão que lançou angústias e dores no mar agitado de “Pirata” (2021). Esqueça também o Jão que buscou grandiosidade entre a melancolia e a sensualidade do álbum “Super” (2023).
Em “Memórias póstumas”, quinto álbum de estúdio do artista, lançado com pompa na noite de ontem, 26 de julho, João Vitor Romania Balbino abaixa os tons para expiar a dor da morte do pai. Em 3 de junho de 2025, Carlos Alberto Balbino faleceu aos 61 anos, em decorrência de arritmia, no meio do hiato anunciado por Jão em janeiro e efetivamente iniciado em abril daquele ano de 2025. O luto pela morte do pai atravessa “Memórias póstumas” ao longo de 14 músicas, quase todas compostas por Jão, sozinho ou em parceria com o companheiro Pedro Tófani.
“A morte já me levou tanto e ainda pede mais”, reflete Jão em verso de “Catedral”, música aliciante que abre o álbum batizado com referência ao romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, publicado em 1981 pelo escritor Machado de Assis (1839 – 1908). A morte do pai embaralhou os pedaços da alma de Jão, e isso se reflete no fluxo confessional de “Memórias póstumas”. Mesmo quando alguma das 14 faixas busca o ápice épico, como “O amor”, faixa de leve toque oriental que traz o veterano Marco Mazzola no time de produtores musicais, Jão se mostra mais interiorizado, dentro de um universo particular marcado pelas perdas.
Dentro desse processo de introspecção existencial, o violão assume papel fundamental na arquitetura de canções como “Literatura”. Mas tal interiorização não exclui o suingue, perceptível na leve batida funkeada de “Aurora”, música introduzida pelo canto a capella de Jão. E, de toda forma, cabe ressaltar que Jão sempre foi um cantor e compositor que escreveu sobre emoções reais, pessoais.
Sob tal prisma, “Memórias póstumas” simboliza um novo (ótimo) capítulo da discografia extremamente pessoal de Jão, cantor que descarta fórmulas batidas do universo pop brasileiro na produção musical geralmente dividida com Zebu. Basta falar que inexistem feats nas 14 faixas do álbum. O luto atravessa o álbum, mas a matéria-prima é o amor.
Na balada “Eu sempre volto”, adornada com cordas arranjadas por Érica Silva, Jão versa sobre o vaivém do universo afetivo compartilhado com Pedro Tófani, sem deixar de se mostrar vulnerável. “Eu quase sempre choro pra dormir lembrando do que eu era antes”, admite em verso da faixa, uma das mais sedutoras do disco. Já “João” expõe outro ponto de vista desse relacionamento afetivo, já que a canção foi escrita somente por Pedro Tófani.
No canto dessa balada, Jão explora regiões agudas da voz, tangenciando o falsete. Outra balada, “Tudo me lembra”, também se alimenta do cotidiano dessa relação entre inseguranças e anseios vividos por Jão na cidade de São Paulo (SP), metrópole que abriga o artista paulista nascido em 3 de novembro de 1974 na interiorana Américo Brasiliense (SP). Muso inspirador de álbum pessoal, esse dia-a-dia também nutre canções como “Coincidências” e “O arquiteto”, duas boas baladas românticas que, talvez por estarem alocadas em sequência no álbum, dão a sensação eventual de que o “Memórias póstumas” é álbum que por vezes soa repetitivo na segunda metade, embora nunca perca o pique criativo.
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