Um relatório da BBC revelou abusos sistemáticos em prisões russas na Ucrânia, destacando o caso de Liudmyla Huseinova, que foi sequestrada em 2019 por homens associados a forças separatistas apoiadas pela Rússia. Liudmyla, agora com 64 anos, descreve sua experiência como um "pesadelo", onde foi vítima de tortura e violência sexual.

Liudmyla foi capturada em sua casa, e entre os sequestradores estava Yurii Temerbek, um ex-policial de trânsito ucraniano que se juntou aos separatistas. Ela relata que, duas semanas após seu sequestro, testemunhou Temerbek enquanto um homem com sotaque russo a agredia sexualmente em um centro de detenção infame.

Relatos de tortura e impunidade

A investigação da BBC identificou Temerbek e outros dois homens acusados de abusos, revelando um sistema de detenção que opera quase fora do alcance da justiça ucraniana e internacional. Os sobreviventes consideram a revelação das identidades uma forma de responsabilizá-los. Liudmyla afirma que, se os homens não forem encontrados e punidos, "a justiça para mim será que os nomes deles como criminosos e torturadores sejam conhecidos por seus filhos".

A ONU classifica a tortura e o tratamento cruel de civis nas prisões como "sistemáticos e generalizados". Segundo a organização, ex-detentos relatam espancamentos, choques elétricos e execuções simuladas. O Kremlin, por sua vez, acusou a ONU de parcialidade e negou as acusações de violência sexual, considerando-as "mentiras infundadas".

Contexto do conflito e suas consequências

Desde a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e a subsequente ocupação de partes do leste da Ucrânia, mais de 16.000 civis foram capturados ou desaparecidos, de acordo com autoridades ucranianas. Liudmyla, que trabalhava como engenheira de segurança em uma fazenda de aves em Novoazovsk, foi detida por supostamente espionar para forças ucranianas, após ajudar a cuidar de órfãos e apoiar as tropas locais.

Ela foi levada para a prisão de Izolyatsia, que anteriormente funcionou como uma galeria de arte moderna e se tornou um local temido devido aos relatos de tortura. Liudmyla descreve as condições brutais que enfrentou, como ser forçada a ficar em pé por longas horas e ouvir gritos de outros detentos. Durante sua detenção, ela foi sexualmente agredida por um homem conhecido como "Koval" e ameaçada por Temerbek.

Após ser liberada em uma troca de prisioneiros em 2022, Liudmyla se reuniu com seu marido em Kyiv e agora dirige uma organização que apoia outras mulheres detidas. Ela também ajuda a enviar pacotes para famílias de prisioneiros ainda em cativeiro, mantendo viva a esperança em meio ao terror vivido durante sua detenção.