Em memória do poeta, crítico, tradutor e ensaísta Alexei Bueno

Arnaldo Saraiva

Disponibilizara-me há dias para fazer hoje algumas reflexões sobre a língua portuguesa na atualidade; mas o inesperado falecimento de Alexei Bueno impõe-me que, três horas depois da celebração da missa de 7º dia, lhe preste nesta Academia, que por sinal ele serviu por alguns anos, uma homenagem modesta de leitor, de amigo, e também de português.

A morte de Alexei Bueno, ocorrida em 2026, gerou uma onda de homenagens e reflexões sobre sua vasta contribuição como poeta, ensaísta, tradutor e crítico. Com um legado que abrange a literatura, o cinema e a cultura artística, Bueno foi uma figura proeminente que deixou sua marca em diversas esferas do conhecimento e da arte.

Contribuições e legado cultural

Alexei Bueno, nascido em 1963, destacou-se por sua forte personalidade intelectual e cívica. Era reconhecido não apenas por sua produção literária, mas também por sua capacidade crítica e pela honestidade em suas avaliações. Em sua obra, abordou temas variados, desde a poesia até a arquitetura, sempre com um olhar atento e fundamentado.

Embora seu trabalho tenha sido muitas vezes rotulado como conservador, ele não se intimidava com tais classificações, utilizando formas fixas e métricas em sua poesia, sem perder a destreza e a força em seus versos. Sua abordagem poética era mais alinhada a autores como Jorge de Lima do que a Oswald de Andrade, refletindo sua preferência por uma poesia discursiva e metafísica.

Uma vida de polêmica e defesa da língua

Além de suas contribuições literárias, Bueno era um defensor ardoroso da língua portuguesa. Sua crítica ao mau uso da língua em meios de comunicação e sua aversão a discursos políticos corruptos e autoritários demonstravam seu compromisso com a qualidade e a autenticidade na comunicação. Ele também se opôs ao que chamava de “espírito de seita” nas vanguardas literárias, criticando a repetição acrítica de opiniões.

Entre suas obras notáveis, destaca-se “Uma História da Poesia Brasileira”, que, embora tenha sido pouco reconhecida, é considerada uma referência importante. Sua dedicação ao tema da escravidão na poesia brasileira resultou na antologia “A Escravidão na Poesia Brasileira do século XVII ao XXI”, que foi rejeitada por um grande editor por não ser escrita por um autor afrodescendente, um episódio que gerou indignação em Bueno.

Famoso por sua dedicação ao trabalho, Alexei se entregava a pesquisas em bibliotecas e sebos, buscando sempre ampliar seu conhecimento e sua produção literária. Seu envolvimento com a cultura foi além das fronteiras brasileiras, tendo participado de colóquios em Portugal e cultivado amizades duradouras no país.

Alexei Bueno deixa um legado significativo, tanto na literatura quanto na crítica cultural, sendo lembrado por sua paixão pela língua portuguesa e seu compromisso com a verdade e a autenticidade nas artes.