O Irã pode encontrar dificuldades para esvaziar seus estoques de petróleo, mesmo após a suspensão das sanções sobre suas importações energéticas. Segundo analistas, a mudança na estratégia energética de seu principal cliente, a China, e a saturação do mercado com petróleo de outros fornecedores contribuem para esse cenário.
Demanda da China em Queda
A China, maior importadora de petróleo do mundo, não tem demonstrado grande entusiasmo em adquirir petróleo iraniano, apesar de ser tradicionalmente o principal comprador do país. "Na verdade, os chineses não mostram entusiasmo em comprar muito petróleo de ninguém", afirmou Fereidun Fesharaki, presidente emérito da FGE NexantECA, em entrevista ao programa "Squawk Box Asia" da CNBC.
As importações chinesas de petróleo caíram significativamente desde o início do conflito no Irã, em fevereiro. Em maio, as compras diminuíram 29% em comparação ao ano anterior, totalizando 7,82 milhões de barris por dia, o nível mais baixo desde fevereiro de 2018, conforme dados da Wind Information.
Além disso, as importações de petróleo cru do Irã pela China mais que foram reduzidas pela metade em junho, atingindo cerca de 654 mil barris por dia em comparação ao mês anterior, segundo informações da Bloomberg.
Aumento da Oferta Global e Impactos Estratégicos
O conflito no Oriente Médio também levou a uma mudança no foco estratégico da China, que está intensificando seus esforços na transição para uma economia verde. Um relatório do Instituto de Política de Segurança e Desenvolvimento, com sede em Estocolmo, destaca que o premiê chinês, Li Qiang, reiterou a necessidade de expandir a energia não fóssil e construir um novo sistema energético, além de incentivar inovações e reformas mais rápidas.
Enquanto isso, a oferta de petróleo deve aumentar ainda mais, já que o cartel OPEC+ concordou em adicionar 188 mil barris por dia à sua meta de produção para agosto. "Esse aumento faz parte do plano do grupo para reverter as restrições de produção impostas há alguns anos, totalizando um incremento de 940 mil barris por dia desde o início da guerra", afirmou um relatório do United Overseas Bank.
Tiago Lacerda, analista de mercado da corretora Axi, comentou que "o aumento da oferta é real", destacando que há um acúmulo significativo de petróleo no mar, já que o Irã enviou mais de 40 milhões de barris desde que os EUA suspenderam o bloqueio naval, enquanto as exportações russas também atingiram níveis recordes.
Entretanto, a possibilidade de interrupções no fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz não pode ser completamente descartada. Fesharaki alertou que o Irã deixou claro que a atual passagem "livre" no estreito estará disponível apenas por 60 dias, após os quais começarão a ser aplicadas tarifas diferenciadas. "Se você é meu amigo, paga menos. Se você não é meu amigo, paga mais. Se eu não gosto de você, talvez eu nem deixe você levar seu petróleo", completou.
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