Os medicamentos Ozempic, Wegovy e Mounjaro, que transformaram o tratamento da obesidade, estão passando por uma nova fase de avaliação. Especialistas agora se concentram em como usar esses medicamentos de forma segura ao longo do tempo, além de determinar quando é apropriado reduzir a dose ou interromper o tratamento. Essa nova abordagem foi delineada em um consenso internacional publicado em julho, focado nos cuidados nutricionais, físicos e psicológicos para os usuários de remédios da classe das incretinas.
Elaborado por organizações europeias, incluindo a European Association for the Study of Obesity (EASO) e a European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD), o consenso foi publicado na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology. Embora não altere as indicações dos medicamentos, o documento propõe uma mudança de foco: emagrecer não deve ser a única meta. A preservação da massa muscular, a qualidade da alimentação, o cuidado com a saúde mental e a individualização das decisões sobre as doses são agora considerados essenciais no tratamento.
Importância da individualização no tratamento
Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), destaca a relevância desse consenso ao afirmar que o tratamento vai além de simplesmente administrar a injeção e perder peso. Ele ressalta que a perda de peso sem supervisão pode resultar em desnutrição, perda de massa muscular e sofrimento psíquico.
Os autores do documento enfatizam que as recomendações são baseadas na melhor evidência disponível, mas não substituem a avaliação médica. O consenso sugere que nem todos os pacientes precisam atingir a dose máxima dos medicamentos; a resposta clínica de cada indivíduo deve guiar essa decisão. Pacientes que já apresentam boa saciedade e emagrecem adequadamente podem não necessitar de doses maiores.
Quando reduzir ou interromper o tratamento
A questão sobre quando interromper o uso dos medicamentos é uma das mais comuns entre os usuários. A decisão deve ser compartilhada entre médico e paciente, considerando benefícios e riscos. O consenso lista sinais que indicam a necessidade de reavaliação, como náuseas persistentes, dificuldade em manter hidratação, perda de peso excessiva e indícios de desnutrição.
Rodrigo Lamounier, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), observa que a interrupção do tratamento pode ocorrer por razões diversas, como o alcance de um peso desejado ou a piora da tolerância ao medicamento. Ele reforça que os medicamentos são importantes, mas requerem cuidado e ajustes conforme a evolução de cada paciente.
O consenso também alerta que a perda de peso não necessariamente implica em ganho de saúde, já que parte do peso perdido pode ser massa muscular. Portanto, manter a funcionalidade muscular e a saúde nutricional é fundamental. Recomenda-se uma ingestão de proteínas adequada e a prática regular de exercícios de força como parte da estratégia de tratamento.
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