Ismael Zambada foi condenado à prisão perpétua por um juíz americano EPA via BBC A prisão perpétua de Ismael "El Mayo" Zambada, decretada nos Estados Unidos nesta segunda-feira (20), representa muito mais do que a forma como termina a trajetória de um dos maiores traficantes da história: ela também marca o fim de um capítulo único na história do narcotráfico no México. Zambada, assim como o outro cofundador do Cartel de Sinaloa, Joaquín "El Chapo" Guzmán, personifica a figura do líder do narcotráfico mexicano que, por décadas, exerceu um poder quase absoluto por meio da violência e do dinheiro, com uma astúcia que impressionou o mundo. Em 2025, quando "El Mayo" respondia às acusações de tráfico de drogas nos EUA, ele mesmo contou a autoridades americanas que começou a cultivar maconha nas montanhas de Sinaloa em 1969, ao lado de um amigo.

Tinha 19 anos. Eles escondiam as plantações ilegais entre fileiras de milho. Embora a primeira colheita tenha rendido menos do que esperavam, os 27 quilos de maconha vendidos por cerca de US$ 400 marcaram o início de sua trajetória no narcotráfico, segundo um documento apresentado por sua defesa neste mês.

Com o crescimento de sua atuação no crime, Zambada passou a controlar as rotas de cocaína da América do Sul para os Estados Unidos e, ao lado de Guzmán, liderou o que as autoridades americanas definiram como "a maior organização de tráfico de drogas do mundo". Mas, após sua controversa captura em 2024 e sua admissão de culpa, o septuagenário foi condenado à prisão perpétua pelo juiz federal Brian Cogan, o mesmo que, sete anos antes, havia imposto a mesma pena a "El Chapo". A sentença também determinou o confisco de US$ 15 bilhões, valor que os Estados Unidos estimam ter sido obtido pelo Cartel de Sinaloa — estimativa que Zambada considerou adequada.

EUA anunciam prisão de 'El Mayo' e filho de 'El Chapo' em aeroporto do Texas Com a queda dos antigos chefes do narcotráfico mexicano, a condenação de "El Mayo" marca o desaparecimento desse tipo de traficante com poder absoluto, que passou de cultivador de maconha a controlador de praticamente todas as etapas do tráfico internacional de drogas, chegando a rivalizar com o próprio Estado, afirmam especialistas. "É uma geração de líderes criminosos que está chegando ao fim. Ou já chegou", disse David Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group e pesquisador especializado em crime organizado, à BBC Mundo, serviço em língua espanhola da BBC.

"É como se esses grandes chefes do narcotráfico estivessem desaparecendo", acrescenta. "Mas o problema do narcotráfico e da violência não desaparece: ele continua, apenas assume outras formas e passa para as mãos de outras figuras." Mudança de era Zambada e Guzmán se associaram após uma disputa que surgiu na década de 1990 entre narcotraficantes e um confronto de "El Chapo" com o cartel de Tijuana, segundo depoimentos e documentos judiciais. Nesses tempos também houve alianças entre cartéis colombianos e mexicanos para enviar cocaína para os Estados Unidos.

Embora comandassem grupos e operações diferentes, Zambada e Guzmán passaram a investir juntos em carregamentos de toneladas de cocaína e a transportá-los para grandes cidades americanas por diferentes meios.