A participação da Argentina na Copa do Mundo gerou discussões que vão além do futebol, trazendo à tona temas como racismo e a formação da sociedade argentina, marcada por forte influência europeia. Um aspecto pouco conhecido é que a Constituição do país contém um artigo que incentiva a imigração de europeus.

Artigo 25 e suas implicações

O Artigo 25 da Constituição argentina, datado de 1853, estabelece que "o Governo Federal fomentará a imigração europeia" e proíbe restrições ou impostos à entrada de estrangeiros com o objetivo de cultivar a terra e desenvolver indústrias. Apesar de sua origem no contexto de uma nação recém-independente da Espanha, esse artigo permanece na versão atualizada da Constituição.

O comentarista da GloboNews, Ariel Palacios, considera esse artigo ultrapassado. Ele argumenta que, na prática, o governo argentino não estimula a imigração europeia, uma vez que os europeus atualmente encontram maior conforto na União Europeia. Além disso, a Lei de Migrações de 2003 estabelece que a imigração deve ocorrer sob princípios de igualdade e universalidade, sem distinção de origem continental.

A transição étnica da Argentina

A presença europeia na Argentina tem raízes na colonização espanhola, que inicialmente criou uma sociedade com uma maioria indígena, além de incluir mais de 200 mil africanos escravizados entre os séculos XVI e XIX. Após a independência, em 1816, a política de incentivo à imigração se intensificou, resultando na chegada de cerca de 7 milhões de imigrantes, principalmente da Espanha e da Itália, entre 1850 e 1950. Uma nova onda de imigrantes do leste europeu ocorreu após a queda da União Soviética.

Paralelamente, a população negra e os povos originários da Argentina diminuíram ao longo dos séculos, devido a genocídios, guerras civis e epidemias, como a febre amarela de 1871, que afetou desproporcionalmente os bairros pobres. Palacios enfatiza que a população de afro-argentinos foi severamente atingida nas guerras de independência e civis, enquanto os povos indígenas sofreram massacres.

Um censo de 2022 revelou que a população de descendentes de povos originários representa apenas 2,9% da população total, enquanto a população negra é ainda menor, com 0,7% dos 46,2 milhões de habitantes. Apesar disso, Palacios menciona que a população argentina apresenta um grau de miscigenação que não é totalmente refletido nas estatísticas.

A cultura indígena ainda influencia a Argentina, especialmente em ritmos populares como o tango, que tem conexões com a música africana. O advogado e ativista Alí Delgado, em entrevista à Deutsche Welle, destaca que a Argentina promoveu um apagamento racial ao longo dos séculos, perpetuando a ideia de um país predominantemente branco. Ele afirma: "A Argentina acha que não é racista porque pensa que não existem pessoas negras no país".