O ator Udylê Procópio à frente de cena do musical de teatro 'Pra te ver feliz', segundo ato da trilogia 'Dá samba', do dramaturgo e diretor João Batista Nil Caniné / Divulgação ♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO Título: Pra te ver feliz Dramaturgia e direção: João Batista Elenco: Aline Borges, Elli Fêrreira, Jeniffer Dias, Lucas da Purificação, Thiago Thomé, Udylê Procópio e Vilma Melo Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ Um dos bambas da geração Fundo de Quintal, revelado como compositor nos anos 1970 na voz de Beth Carvalho (1946 – 2019) e projetado como cantor na década de 1980, Almir Guineto (12 de julho de 1946 – 5 de maio de 2017) teria festejado 80 anos há dez dias. Talvez pelo fato de quase nunca Guineto ter recebido as reverências destinadas a bambas contemporâneos como Arlindo Cruz (1958 – 2025) e Jorge Aragão, a efeméride passou praticamente despercebida. O silêncio somente foi quebrado pela estreia do musical “Pra te ver feliz”, escrito e dirigido por João Batista com inspiração na obra deste partideiro de alta estirpe que o Brasil conheceu em 1981 quando Guineto defendeu o samba “Mordomia” (Ary do Cavaco e Gracinha) no festival MPB-Shell 81, exibido pela TV Globo naquele ano.

Segundo ato da trilogia “Dá samba”, iniciada há 13 anos com o espetáculo “Quando a gente ama” (2013), calcado na obra de Arlindo Cruz, o musical “Pra te ver feliz” está em cartaz no teatro do Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, de quinta-feira a domingo, até 9 de agosto (há sessão para convidados nesta quarta-feira, 22 de julho). Sete atores cantam 13 músicas de Almir Guineto (1946 – 2017) no musical de teatro 'Pra te ver feliz', em cartaz no Rio de Janeiro (RJ) Nil Caniné / Divulgação Em cena, sete talentosos atores – Aline Borges, Elli Fêrreira, Jeniffer Dias, Lucas da Purificação, Thiago Thomé, Udylê Procópio e Vilma Melo – dão vozes a 13 músicas do cancioneiro de Guineto, evidenciando luzes e sombras do repertório do artista. A maioria das músicas tem a assinatura de Guineto.

Contudo, três grandes sucessos do cantor – “Conselho” (Adilson Bispo e Zé Roberto, 1986), “Insensato destino” (Maurício Lins, Chiquinho e Acyr Marques, 1985) e “Mel na boca” (Davi Correia, 1986) – são de lavras alheias e figuram no roteiro musical porque são temas obrigatórios em qualquer antologia de Guineto. Na costura da dramaturgia, “Mel na boca” é a trilha de desilusão amorosa sofrida por uma das personagens em cena que fica em sintonia com o tom melancólico de outro samba do roteiro, “Tem nada, não” (Almir Guineto, Jorge Aragão e Luverci Ernesto, 1979), samba lançado por Beth Carvalho, regravado por Jorge Aragão em 1993 e geralmente pouco associado a Guineto. Já “Conselho” – hino de resistência que prega o alto astral para driblar as vicissitudes da vida – é ouvido quase ao fim do musical, sublinhando a alegria que regia a obra do bamba do Salgueiro, escola de samba da qual Guineto era devoto.

A propósito, o amor do bamba à agremiação vermelho e branca é representado em cena pelo canto do samba “Abençalgueiro” (Almir Guineto, Nei Lopes e Vanilda Bazeth, 1988). O canto coletivo dos sambas “Da melhor qualidade” (Almir Guineto e Arlindo Cruz, 1985) e “Brilho no olhar” (Almir Guineto, Celso Leão e Daniel, 1997), no início e no fim do musical, evidencia a luminosidade dominante na cena temperada com humor popular – mote de “Saco cheio” (Dona Fia e Marcos Antônio, 1981), número protagonizado por Thiago Tomé – e com a descontração típica de uma roda de samba em números coletivos como “Caxambu” (Élcio do Pagode, Jorge Neguinho, Zé Lobo e Bidubi, 1986), trilha de noite de Natal em família devota do samba.