A esquerda brasileira precisa admitir uma coisa que talvez seja desconfortável: ela ainda não aprendeu a se comunicar na era das redes sociais. E não é um diagnóstico feito apenas por adversários. É reconhecido inclusive por vozes do próprio campo progressista, como o historiador Jones Manoel, que aponta o atraso digital, a artificialidade na tentativa de dialogar com os jovens e, principalmente, a dificuldade de apresentar uma visão convincente de futuro.
Esse problema é maior do que Instagram, TikTok, YouTube ou qualquer outra plataforma. A questão é política. A direita compreendeu que a disputa contemporânea não acontece apenas entre propostas, partidos e candidatos. Ela acontece pela atenção das pessoas, pela capacidade de produzir identificação e pela habilidade de transformar uma mensagem complexa em algo que possa ser compreendido, compartilhado e repetido.
A esquerda, muitas vezes, continua falando como se estivesse em um palanque de 20 anos atrás. O exemplo mais evidente é a tentativa de parecer jovem sem efetivamente falar a linguagem dos jovens. Não basta colocar um político mais velho para fazer dancinha, usar uma gíria ou gravar um vídeo informal. Se a comunicação foi pensada por estruturas partidárias tradicionais, com linguagem artificial e sem participação real da juventude, o resultado tende a ser exatamente aquilo que Jones Manoel classificou como ‘cringe’.
O jovem percebe quando está diante de uma tentativa de parecer aquilo que não é.
Qual futuro a esquerda está oferecendo?
Mas existe um problema ainda mais profundo: qual futuro a esquerda está oferecendo? Durante muito tempo, foi relativamente fácil para o campo progressista construir sua identidade política a partir de conquistas passadas. Direitos trabalhistas, programas sociais, expansão das universidades, redução da pobreza e outras políticas públicas são importantes e devem ser defendidas quando produziram resultados. O problema é imaginar que lembrar o passado é suficiente para convencer alguém que tem 20, 25 ou 30 anos e está preocupado com o aluguel, o preço da comida, a dívida no cartão, a dificuldade de comprar uma casa e a perspectiva de passar anos trabalhando sem conseguir construir patrimônio.
É nesse ponto que a crítica de Jones Manoel merece ser levada a sério até por quem discorda de quase todo o restante de sua visão política.
Celebrar uma taxa de desemprego historicamente baixa não resolve a angústia de quem trabalha 10 ou 12 horas por dia em uma atividade precária e continua sem perspectiva de ascensão. Ter uma ocupação é diferente de ter um projeto de vida sustentável.
E esse vazio é perigosíssimo para a esquerda. Porque quando um campo político não apresenta uma resposta convincente para o futuro, alguém apresenta.
A direita percebeu isso antes.
Comentários (0)
Entre ou cadastre-se para comentar.