Em meio às mudanças no campo e à expansão das grandes redes de comércio, as vendinhas do interior de São Paulo continuam a resistir e a desempenhar um papel fundamental na comunidade. Esses pequenos estabelecimentos preservam memórias e laços, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.

Na Estrada 12, em Três Fronteiras (SP), próxima a Santa Fé do Sul, uma vendinha com quatro décadas de história atrai visitantes em busca de sabores e recordações de um passado rural. O agricultor Antônio Scarabeli, que construiu sua vida ao lado da família no local, relembra a época em que a região era marcada por pequenos sitiantes e cafezais: “Tinha muita gente. Nós vendíamos de tudo. Depois foi acabando o café, entrando a cana e o povo foi indo embora”, conta.

Seu filho, Dimar Aparecido Scarabeli, destaca que a vendinha já foi o principal centro comercial da área. “A compra da semana, do mês, era tudo aqui. Chegamos a vender 100, 150 quilos de farinha e dezenas de fardos de açúcar por semana”, afirma.

Atualmente, a função do local mudou, mas ele continua sendo um ponto de encontro para moradores e turistas. Entre os produtos mais buscados estão conservas, queijos e doces artesanais, feitos por Nádia Maria Freitas Scarabeli.

Memória e identidade

Visitar uma vendinha é, para muitos, uma forma de revisitar a própria história. Mariene Maia, cliente frequente desde a infância, expressa sua conexão com o passado: “Me faz sentir muita saudade daquele tempo que, infelizmente, não vai voltar. Mas estamos resgatando essas raízes e mantendo essa história viva”.

O historiador Silvio Luiz Lofego ressalta a importância dessas vendinhas na preservação da memória rural. “Elas representam espaços de resistência. Muitas comunidades rurais desapareceram, mas as vendas permanecem como símbolos de convivência e identidade local”.

Tradição em Nova Canaã Paulista

Em Nova Canaã Paulista (SP), outra vendinha, localizada no Bairro do Louro e com quase 70 anos de existência, também mantém viva essa tradição. Administrada por Paulo Francisco Araújo e Sônia Maria Andrade Araújo há 42 anos, o local preserva o costume da venda fiado e a história de amor do casal, que se conheceu ali. “A clientela virou família. Temos amigos de 50 anos aqui”, destaca Sônia.