Veja como beatos de araque podem faturar alto no mercado da hipocrisia 22 de julho de 2026, 20h22 A “lava jato” se foi, mas o lavajatismo ficou. O “combate à corrupção” industrializou-se — da mesma forma que se faz com a desinformação, com os identitarismos, com o discurso ambiental e a imagem intergalática exagerada de grupos criminosos. Se a corrupção já foi ou é um bom negócio, vender a imagem de paladinos da justiça pode ser mais lucrativo ainda.

O dólar pode cair ou não. No mercado do oportunismo, entretanto, a demanda e a oferta de demagogia estão sempre em alta. Os negociantes do ramo seguem a mesma cartilha: 1) Aproveitam-se de um problema real, como a corrupção, a destruição da natureza ou o crime organizado; 2) Superfaturam o tamanho do problema; 3) Industrializam falsas soluções, como se fez na “lava jato”; 4) Procuram quem quer comprar suas campanhas, como a que se move contra o Supremo Tribunal Federal.

Clientela não falta. Os produtores rurais da Europa, em busca de pretexto para bloquear as vendas brasileiras; os grandes contribuintes, que, no Brasil, em matéria tributária, perdem sistematicamente para o Fisco; ou um Donald Trump, em busca de pretexto para desequilibrar a balança comercial, a seu favor — e por aí vai. O magnata Um dos magnatas desse negócio é o empreendedor e sacerdote de Vesta Joaquim Falcão.

Sua especialidade é criar fundações altamente lucrativas que vendem em suas gôndolas filantropia, idealismo e conversa mole. No célebre esquema “lava jato”, Falcão associou-se a Sergio Moro e procuradores da República. Com a fama de resolvedor, ele passou a vender alforria a envolvidos nas investigações — colocando ou tirando nomes do rol de alvos da autoapelidada “força-tarefa”.

Esse tipo de tramoia, narram advogados criminais que atuaram na defesa de réus de Curitiba, germinou e floresceu em célebres delações premiadas. Os produtos comercializados em questão eram também a inclusão ou exclusão de nomes. Nesse sistema de corretagem, houve também balcões de venda de felicidade — vendedores de serviços jurídicos que garantiam absolvição caso assumissem a causa.

Joaquim Falcão, em busca de novas oportunidades, está lançando o livro A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia. Ele investe furiosamente contra os Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Com o mesmo vigor que as hordas golpistas usaram para invadir e depredar os principais edifícios da Praça dos Três Poderes.

Mestre do emparedamento O autor, como descrevia o então presidente do Uruguai, Julio María Sanguinetti, é dessas pessoas que tiveram toda a paciência do mundo com a ditadura, mas nenhuma com a democracia. Falcão tornou-se conhecido como um dos pioneiros do movimento para emparedar o Supremo Tribunal Federal — que, com uma mão, tentou subordinar o tribunal a Curitiba e, com outra, eleger Jair Bolsonaro. Assim como a “lava jato” legitimou a mentira como instrumento jurídico, o autor do livro a usa como argumento sociológico.

Ele apresenta como prova de sua teoria — de que os poderes se acumpliciaram para destruir a democracia — um fato inexistente. Diz ele que, no Brasil, ministros do STF apresentam projetos de lei ao Congresso.