A Síria descartou a possibilidade de uma intervenção militar no Líbano, mesmo diante da pressão dos Estados Unidos para que tomasse medidas contra o Hezbollah. O país busca evitar escalonamentos e priorizar a reconstrução das relações com Beirute.

O ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad al-Shaibani, comunicou ao presidente libanês, Joseph Aoun, que Damasco não tem a intenção de intervir militarmente no Líbano, conforme informações divulgadas pela presidência libanesa. Shaibani, que também convidou Aoun a visitar a Síria, está em Beirute, onde se reuniu com o presidente do parlamento, Nabih Berri, aliado do Hezbollah, pela primeira vez.

Pressão dos EUA e nova liderança síria

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem afirmado repetidamente que a Síria poderia “resolver o problema do Hezbollah”, criticando a estratégia de Israel em sua guerra com o grupo militante apoiado pelo Irã. Entretanto, o presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, que assumiu o poder em dezembro de 2024 após liderar uma coalizão que depôs o ex-presidente Bashar al-Assad, enfatizou que não pretende intervir ou reabrir feridas antigas.

Shaibani afirmou a Aoun que desejava “esclarecer a confusão gerada por relatos sobre uma possível intervenção militar síria no Líbano”, reiterando que “a Síria não tem intenção de realizar tal movimento”, conforme declarado pela presidência libanesa.

Reuniões e novas perspectivas

Após o encontro com Berri, Shaibani declarou a repórteres que não descarta a possibilidade de um encontro com o Hezbollah no futuro. Ele já havia visitado o Líbano em outubro, sendo essa a primeira visita de um alto funcionário sírio desde que a coalizão islâmica assumiu o poder em Damasco, sinalizando uma nova fase nas relações entre os dois países.

O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, também esteve na Síria em maio. Durante uma aparição conjunta com Shaibani, Salam anunciou a criação de um comitê de alto nível encarregado de desenvolver parcerias econômicas e acordos de segurança entre os dois países.

As novas autoridades sírias são hostis ao Hezbollah, que era aliado de Assad, e já anunciaram a prisão de células suspeitas ligadas ao grupo. O Hezbollah nega ter qualquer presença na Síria. Desde o final de 2024, as rotas de abastecimento do Hezbollah na Síria foram cortadas, e as autoridades de Damasco afirmam ter frustrado várias tentativas de contrabando de armas para o Líbano.

A Síria havia intervenido militarmente no Líbano durante a guerra civil de 1976 e manteve controle sobre o país por décadas, sendo acusada de diversas tentativas de assassinato. Durante sua visita, Shaibani encontrou-se com líderes de partidos cristãos que se opuseram à tutela síria.

“Esta visita estabelece as bases para uma nova fase nas relações com o Líbano e as diferentes facções políticas libanesas, baseada em parceria e cooperação”, afirmou Shaibani.

Samy Gemayel, líder de um dos partidos cristãos, comentou que seu grupo “sacrificou milhares de mártires na luta contra o regime de Assad”, mas está “recebendo hoje o representante da nova Síria”.