Qual o papel do humano em cargos de decisão na era da inteligência artificial? 20 de julho de 2026, 21h29 Antes de se tornar o título de uma série de televisão, o “gambito da rainha” era apenas como uma jogada de xadrez em que um peão é oferecido ao oponente para obter, nas jogadas seguintes, uma vantagem posicional decisiva. Quem olha o tabuleiro pela primeira vez captura a peça desprotegida: é a reação natural, o pensamento de primeira ordem.

Quem entende a posição enxerga o que virá em três, cinco, dez jogadas. Usar a inteligência artificial para tudo agiliza os fluxos de trabalho, mas transfere a capacidade de pensar para a máquina. A rapidez inicial é a captura do peão, uma vantagem aparente que cobra o preço adiante, na deterioração da habilidade de raciocinar de forma estratégica e em longo prazo.

Aceitar sem questionar todos os caminhos que a máquina aponta funciona no tabuleiro, na planilha, no parecer e na petição, mas pode ser a armadilha do gambito da rainha. Em 2025, pesquisadores do MIT Media Lab analisaram com eletroencefalografia, o cérebro de pessoas que escreviam com e sem assistência de inteligência artificial. O grupo que redigiu sozinho exibiu as redes neurais mais fortes e integradas; o que se apoiou no modelo de linguagem, a conectividade mais fraca e, ao final, mal conseguia citar o texto que “havia escrito”.

Os autores deram nome à conta que se acumula em silêncio: dívida cognitiva. Quem terceiriza o pensamento não sente o prejuízo no primeiro lance. Sente quando chega a posição que a máquina não previu e a musculatura de pensar, atrofiada por desuso, não responde, gerando um problema maior.

O erro, convém frisar, não é usar a IA. Defender isso seria como pregar o retorno à máquina de escrever, pois a tecnologia veio para ficar e alterar a maneira como trabalhamos. O erro é aceitar o que sai da máquina sem entender como aquilo foi formado e quais suas consequências.

Quem ocupa o cargo de decisor – o juiz, o promotor de justiça, o advogado que responde pelo que peticiona, o diretor de departamento jurídico – precisa pensar: por que ir por aqui e não por ali? O que isso me custa três jogadas adiante? Quais as lacunas no que a IA propõe?

Qual custo humano não está sendo considerado? Peter Bernstein escreveu que tomar a decisão é apenas o começo: o difícil não é escolher, é lidar com as consequências da escolha [1]. A máquina não responde, mas o jurista sim, perante o cliente, o usuário do serviço, a comunidade e seu órgão disciplinar.

Limites da máquina A máquina é veloz onde somos lentos, mas herda o passado que lhe deram. Aprende padrões a partir dos dados, e com eles, os vieses que os dados carregam. O caso sempre citado é o Compas, mecanismo de cálculo de probabilidade de reincidência usado em tribunais norte-americanos.

Uma investigação apontou que o algoritmo rotulava réus negros como tendo alto risco de reincidir aproximadamente o dobro do que réus brancos, sem que isso ocorresse na prática. O algoritmo, contudo, não era racista por desenho, mas a sua neutralidade reproduzia, com eficiência, os padrões de um sistema historicamente enviesado. O aplicativo capturava o peão da estatística e ignorava o gambito social.