Cerca de 84% do consumo doméstico de soja na China depende de importações e mais da metade desse abastecimento vem do Brasil Bloomberg via Getty Images/BBC Em pouco mais de duas décadas, a China passou de parceiro secundário a principal destino das exportações brasileiras, impulsionando uma sucessão de recordes de vendas do agronegócio nacional. Apenas em 2025, o Brasil faturou US$ 100 bilhões com o mercado chinês — mais do que com qualquer outro país do mundo. O ritmo segue forte em 2026.
De janeiro a junho, as vendas brasileiras para o mercado chinês atingiram US$ 58,322 bilhões, um crescimento de 21,9% em comparação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados consolidados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No mesmo intervalo, as exportações para os Estados Unidos recuaram 13%, uma perda de US$ 2,6 bilhões, após o governo de Donald Trump impor tarifas de 50% sobre parte dos produtos brasileiros em 2025. Na quarta-feira (22/7), entrou em vigor uma nova tarifa adicional de 25%, ampliando a pressão para que o Brasil encontre outros destinos para os produtos afetados.
Mas as barreiras comerciais que vem sendo impostas por Trump também podem acelerar uma mudança mais ampla no comércio agrícola global. Uma reportagem publicada na terça-feira (21/7) no britânico Financial Times, um dois principais jornais de finanças do mundo, afirma que os EUA correm o risco de perder para o Brasil o posto de maior exportador agrícola do mundo. Segundo o Departamento de Agricultura americano e o Ministério da Agricultura brasileiro, os EUA exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas no ano passado, apenas US$ 2 bilhões a mais do que o Brasil.
Em 2021, essa diferença foi de US$ 56 bilhões. Analistas ouvidos pelo jornal apontam que um dos principais fatores por trás desse avanço foi a guerra comercial iniciada por Donald Trump, principalmente contra a China. Desde seu primeiro mandato, quando tarifas foram impostas ao país asiático em 2018, Pequim reduziu significativamente as compras de produtos agrícolas americanos e ampliou suas importações de países como o Brasil.
Esse cenário reforça, no curto prazo, a importância do mercado chinês para compensar perdas em outros parceiros comerciais. Mas, enquanto o Brasil se volta para a China como parte de sua estratégia de diversificação, Pequim trabalha para reduzir justamente a dependência externa que ajudou a transformar o país em uma potência agrícola. "A China identificou que estar muito exposta a importações é um elemento de vulnerabilidade para um país com uma população tão grande e por isso está promovendo uma mudança estrutural", afirma Larissa Wachholz, coordenadora do Programa Ásia e do Grupo de Análise da China do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e ex-assessora especial do Ministério da Agricultura.
Essa mudança aparece de forma explícita no recém-lançado 15º Plano Quinquenal Nacional (2026-2030) da China. O documento elevou a segurança alimentar à condição de prioridade estratégica nacional e estabeleceu metas para ampliar a produção doméstica de grãos, aumentar a autossuficiência em sementes agrícolas, acelerar o uso de inteligência artificial no campo e desenvolver novas fontes de proteína.
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