No dia 15 de julho de 2016, a Turquia vivenciou uma tentativa de golpe de estado que alterou o rumo político do país. O episódio teve início em uma noite de verão, quando tanques invadiram as ruas e jatos de combate sobrevoaram as cidades de Ancara e Istambul. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, fez um apelo à população para que saísse às ruas e impedisse o golpe, que fracassou naquela mesma noite, mas cujas consequências políticas se estendem até os dias atuais.

Consequências imediatas e a nova realidade

A tentativa de golpe foi atribuída ao movimento Gulen, liderado pelo clérigo Fethullah Gulen, que, anteriormente, havia sido um aliado de Erdogan. Após a ruptura da aliança, o governo acusou Gulen de infiltrar diversos órgãos do estado para minar a autoridade do governo. Gulen viveu em exílio nos Estados Unidos e faleceu em 2024. Em resposta ao golpe, mais de 125 mil membros da administração pública e das forças armadas foram demitidos, e cerca de 390 mil pessoas foram detidas entre 2016 e 2025, sob suspeita de ligação com o movimento Gulen.

O impacto da emergência e a centralização do poder

Seis dias após a tentativa de golpe, o parlamento aprovou um estado de emergência que se estendeu por dois anos, permitindo ao presidente governar por meio de decretos. Durante esse período, 32 decretos foram emitidos, resultando em uma estrutura administrativa altamente centralizada, segundo o cientista político Ersin Kalaycioglu. Apesar de o estado de emergência ter sido formalmente encerrado em 2018, suas práticas se tornaram institucionalizadas, transformando a burocracia em um órgão que segue diretrizes políticas.

Além disso, a tentativa de golpe acelerou a aliança entre o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) e o Partido Nacionalista de Movimento (MHP). Essa colaboração facilitou a aprovação de um referendo constitucional em 2017, que resultou na transição da Turquia de um sistema parlamentar para um presidencialismo, aumentando significativamente os poderes do presidente e abolindo o cargo de primeiro-ministro.

Essa mudança estrutural gerou críticas, com opositores do governo descrevendo o novo sistema como um “sistema de um homem só”. A oposição, no entanto, começou a se unir em alianças eleitorais, o que resultou em vitórias significativas nas eleições municipais de 2019 e 2024 nas cidades de Istambul e Ancara. Contudo, muitos líderes da oposição, como o prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, enfrentam investigações e acusações de terrorismo, refletindo um ambiente político tenso e polarizado.