Lucy Everlyn Atim, uma ativista climática de Uganda, está liderando um movimento para transformar resíduos de shea em briquetes de combustível, enquanto combate a destruição das árvores nativas, ameaçadas pela produção de carvão. Ao retornar para casa após seis anos atuando em assentamentos de refugiados no Sudão do Sul, Atim se deparou com a extinção de sua árvore de shea favorita, conhecida localmente como moyao.
“A destruição das árvores de shea é alarmante. Essas árvores precisam ser protegidas, mas as pessoas também precisam de uma fonte alternativa de combustível”, afirmou Atim em entrevista ao Al Jazeera. Na Uganda, cerca de 122.000 hectares de florestas são perdidos anualmente, principalmente devido à produção de carvão e desmatamento. Com aproximadamente 90% das famílias do país dependendo do carvão para cozinhar, a extinção de espécies nativas como o shea e o Afzelia africana se intensifica.
Um estudo da Universidade Makerere revelou que a população de árvores de shea em terras em pousio caiu de cerca de 20 árvores em 2008 para entre 10 e 15 em 2017. Dr. Patrick Byakagaba, pesquisador ambiental da universidade, destacou a escassez de dados sobre a diminuição dessa população, mencionando que a extração de carvão frequentemente envolve o desarraigamento total das árvores, dificultando o monitoramento.
Iniciativa Moyao Africa
Durante seu trabalho no Sudão do Sul, Atim conheceu uma mulher que produzia briquetes de combustível a partir de cascas de shea descartadas. Essa experiência a inspirou a fundar, em 2023, a Moyao Africa Initiative, uma empresa social que transforma resíduos de shea em briquetes, ao mesmo tempo em que ajuda mulheres a obter renda com o processamento de manteiga de shea. A iniciativa emprega seis pessoas e trabalha com mais de 1.200 mulheres organizadas em grupos de poupança.
“Na maioria dos lares, as mulheres têm a responsabilidade de encontrar combustível para cozinhar. Ao treiná-las para fazer e vender briquetes e manteiga de shea, estamos criando uma fonte de renda e oferecendo uma alternativa acessível ao carvão”, explicou Atim.
Impacto e desafios
Em uma tarde quente em Alebtong, 15 mulheres participam de uma sessão de treinamento da Moyao Africa Initiative, aprendendo a transformar cascas de shea em combustível. A produção atual, no entanto, é limitada pela colheita sazonal do shea. Atim está economizando para adquirir um carbonizador, triturador e uma máquina para fabricação de briquetes, que custam cerca de $530. Com esse equipamento, a iniciativa poderá processar mais resíduos e aumentar a produção de briquetes ao longo do ano.
O especialista em energia renovável, Bosco Odyek, comentou que a conversão de cascas de shea em briquetes representa uma alternativa prática ao carvão, ao utilizar material que seria desperdiçado. Além disso, a Moyao Africa Initiative promove clubes ambientais em 20 escolas e colabora com a Organização Nacional de Pesquisa Agrícola (NARO) para distribuir mudas de árvores, incentivando a restauração da paisagem local.
Apesar das iniciativas, Paul Mwirichia, especialista em humanitarismo e desenvolvimento, ressaltou que o acesso à energia limpa ainda é um desafio para muitas famílias rurais. Ele enfatizou a importância do apoio governamental a organizações locais como a de Atim, que compreendem as necessidades de suas comunidades.
Para Atim, a missão vai além da preservação das árvores; ela busca garantir que mais mulheres possam ter uma fonte de renda sustentável a partir delas. “Estamos deixando ninguém para trás”, concluiu.
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