Adelto Gonçalves A trajetória do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) nas sendas da Maçonaria, à falta de maior abundância de documentos nos arquivos, tem sido tratada com certa brevidade nas biografias que foram escritas até aqui, inclusive naquela que este articulista escreveu. Só por isso se mostra a importância de “Bocage — Arauto do Iluminismo: O ‘Irmão Lucrécio’ da Loja Fortaleza e a Aurora das Luzes em Portugal” (Lisboa, Âncora Editora, 2026), obra em que o jornalista e historiador Jorge Morais procura revisitar a figura do vate para além da imagem popularizada ao longo dos séculos, marcada apenas pelo seu lado pícaro, estroina e boêmio, uma visão que, como bem diz o autor, é redutora e incompleta. Ou seja, nesta obra o leitor irá encontrar um Bocage menos conhecido, ligado às correntes iluministas que chegaram a Portugal ao final do século XVIII, uma faceta ainda pouco divulgada, exatamente em função da ausência de documentação que pudesse indicar o caminho traçado por ele em lojas maçônicas.
Bocage: poeta português | Foto: Reprodução Como se sabe, para evitar que seus seguidores pudessem ser reconhecidos e perseguidos pelo Santo Ofício ou mesmo pelo poder político à época, as lojas maçônicas procuraram evitar deixar vestígios que pudessem comprometer seus seguidores. Bocage teria sido o principal arauto do Iluminismo em Portugal, pois defendia ideias como o cientificismo, o experimentalismo e outros valores associados à Revolução Francesa (1789), como liberdade, igualdade e fraternidade. Para Morais, Bocage teria sido o principal arauto do Iluminismo em Portugal, pois defendia ideias como o cientificismo, o experimentalismo e outros valores associados à Revolução Francesa (1789), como liberdade, igualdade e fraternidade.
Só que não foram estes valores que ficaram para a História a respeito do poeta, mas, sim, uma imagem distorcida em que se dava ênfase a versos pornográficos e chocarreiros, alguns até inventados por outrem e atribuídos a ele. Na verdade, Morais já havia dado um passo inicial nessa busca da trajetória maçônica com o livro “Bocage Maçon” (Lisboa, Via Occidentalis, 2007), que obteve o Prêmio Bocage de Ensaio em 2006, em que esboçou “uma interpretação ilativa sobre a mensagem crítica da obra do poeta, ensaiando com isso uma aproximação ao tema, escassamente estudado”, como observa no capítulo inicial. De fato, como ressalta, o que havia eram “múltiplas referências soltas, aqui e ali encontradas em obras gerais, muitas toldadas pela imprecisão”.
Jorge Morais: jornalista, historiador e ensaísta: com vasta obra na área de Estudos Ingleses e da História Social e Política de Portugal | Foto: Diário de Notícias Por isso, à falta de documentos precursores mais precisos, procurou elaborar “um roteiro bibliográfico” sobre o percurso do “irmão Lucrécio”, nome simbólico que Bocage utilizara na loja Fortaleza, entre o final do século XVIII e o início do século XIX.
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