Flávio Bolsonaro esteve presente, na manhã desta terça-feira (7), no último dia de audiências promovidas pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos), órgão responsável pela investigação que sugeriu a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros. Sua participação gerou um intenso debate político acerca do controle da narrativa em torno do que tem sido denominado de “tarifaço”.
O cientista político Rafael Cortez, professor do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), avaliou o impacto das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos no contexto eleitoral. Segundo ele, o governo Lula ainda se destaca na disputa pelo discurso político relacionado ao tema, independentemente do resultado das tarifas.
Lula vence em múltiplos cenários, segundo analista
Cortez argumentou que Lula possui alternativas favoráveis tanto na eventualidade de derrubada quanto de manutenção das tarifas. “A razão dessa vantagem é que me parece que Lula vence com diversos caminhos”, afirmou. No caso de eliminação das taxas, Lula poderia reivindicar esse resultado como um triunfo da diplomacia, mostrando que a relação com os Estados Unidos é equilibrada.
Por outro lado, se as tarifas forem mantidas, o governo poderia usar a narrativa de transferência de responsabilidade ao bolsonarismo, vinculando a agenda protecionista à antiga administração, o que também renderia capital político ao atual governo.
Único caminho favorável a Flávio exige gesto espetacular de Trump
O analista identificou uma possibilidade específica em que Flávio Bolsonaro poderia alcançar uma vitória política significativa. “Flávio tem uma chance de vencer, me parece, que é o caso de uma derrubada dessas tarifas e uma comunicação muito forte por parte de Donald Trump, atribuindo a derrubada das tarifas à figura do Flávio Bolsonaro”, explicou Cortez.
Para que essa narrativa tenha respaldo eleitoral, seria necessário um gesto “espalhafatoso” por parte de Trump, criando a percepção de que, sob a liderança de Flávio, o Brasil teria uma relação privilegiada com os Estados Unidos.
Bolsonarismo teria sido pego de surpresa pelo tarifaço
O cientista político também destacou que a campanha de Flávio Bolsonaro não previu adequadamente os riscos associados a essa situação. Inicialmente, Flávio viajou aos Estados Unidos para reforçar seu prestígio político após um vazamento de áudio envolvendo ele e Daniel Vorcaro, buscando solidificar sua posição como candidato da direita. No entanto, o aumento do foco no tema tarifário complicou sua posição, tornando difícil dissociar-se da agenda protecionista norte-americana.
Eleição equilibrada e o papel dos eleitores independentes
Sobre a relevância da relação Brasil-Estados Unidos durante a campanha eleitoral, Cortez observou que, embora seja um elemento importante, não será o fator dominante. “Não estou dizendo, e nem acho que seja o cenário, de que esse tema vai dominar o debate presidencial, apesar das questões clássicas de segurança pública, economia, inflação”, disse.
Ele ressaltou que, em um cenário eleitoral equilibrado, outros fatores, como investigações da Polícia Federal ou escândalos de corrupção, podem ser decisivos. Para Flávio, conquistar o apoio de eleitores independentes será crucial para reverter o resultado do primeiro para o segundo turno, sendo que a abstenção desse eleitorado, desiludido com a polarização, pode dificultar essa tarefa.
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