Um estudo realizado por acadêmicos do Instituto de Artes e Ciências da Universidade de Ciência de Tóquio revela que mudanças na maneira como nomes de lugares estrangeiros eram escritos em jornais japoneses podem indicar a ascensão do nacionalismo excludente no Japão antes da Segunda Guerra Mundial.
O trabalho, publicado na revista PLOS One, analisa 300.110 artigos de 54 jornais entre 1912 e 1943, utilizando uma abordagem estatística para rastrear as mudanças na aceitação de palavras estrangeiras. Essa pesquisa se baseia na premissa de que, à medida que atitudes nacionalistas se intensificam, as pessoas tendem a favorecer palavras do próprio idioma e a rejeitar termos estrangeiros.
Contexto histórico do nacionalismo no Japão
O Japão pré-guerra é um caso particularmente significativo para explorar essa dinâmica, pois seu sistema de escrita permite distinguir facilmente palavras estrangeiras de palavras nativas. O japonês é escrito com três conjuntos de caracteres, sendo que palavras estrangeiras são geralmente transcritas em katakana, enquanto palavras japonesas tradicionais utilizam hiragana e kanji.
Os pesquisadores, liderados pela professora associada Tomoko Matsumoto, observaram que eventos políticos nos anos que antecederam a guerra, como tentativas de golpe militar e a retirada do Japão da Liga das Nações, estavam associados ao aumento do nacionalismo no país. O estudo também levanta a hipótese de que mudanças na forma como os nomes de lugares estrangeiros eram escritos poderiam refletir a crescente exclusão de certos países.
Metodologia e descobertas da pesquisa
A equipe utilizou um método conhecido como transformação de espectro singular para analisar as variações mensais no uso de katakana e ateji (transliterações baseadas em kanji) para nomes de lugares estrangeiros. O foco recaiu sobre os Estados Unidos e o Reino Unido, que se tornaram inimigos do Japão, e Alemanha e Itália, que se tornaram aliados.
Os resultados indicam que o nacionalismo excludente no Japão não apresentou um aumento constante antes da guerra, mas sim flutuações ao longo do tempo. Os pesquisadores identificaram pontos de inflexão significativos em 1924, 1927, 1936 e 1938, associados a eventos políticos marcantes.
Após 1924, a utilização de katakana aumentou, coincidindo com a nomeação do Ministro das Relações Exteriores Kijūrō Shidehara, defensor da cooperação internacional. Contudo, essa tendência desacelerou após sua saída em 1927 e mudou ainda mais após a tentativa de golpe em 1936, período que viu um aumento na militarização. O uso de katakana continuou sendo mais comum para nomes de lugares da Alemanha e Itália, evidenciando diferenças na percepção do Japão em relação a aliados e inimigos antes do conflito.
Os pesquisadores concluem que a análise das mudanças linguísticas pode servir como um indicador precoce de tensões sociais e conflitos internacionais. “Este estudo aprofunda nossa compreensão sobre o papel do nacionalismo excludente em conflitos, evidenciando sua natureza complexa na formação de distinções entre amigos e inimigos durante períodos de guerra”, afirmam.
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