O governo brasileiro emitiu um pedido público de desculpas pelo desaparecimento de Paulo de Tarso Celestino da Silva, ex-aluno de Direito da Universidade de Brasília (UnB), durante a repressão da ditadura militar. O ato ocorreu em uma cerimônia na UnB, com a presença de familiares, ex-colegas, membros da comunidade acadêmica e representantes da Comissão de Mortos e Desaparecidos e da Comissão de Anistia.

O Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania destacou que a ação simbólica visa promover reparação a Paulo de Tarso e sua família, além de um reconhecimento à população brasileira. Natural de Morrinhos (GO), Paulo de Tarso, filho de Pedro Celestino da Silva, deputado federal cassado pelo AI-5, concluiu o curso de Direito em 1969 e era militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), tendo realizado pós-graduação na Universidade de Sorbonne, na França.

O ex-estudante foi considerado morto pela Lei 9.140, de 1995, que reconhece a morte de pessoas detidas por agentes públicos durante a ditadura.

De acordo com informações do portal Memórias da Ditadura, Paulo de Tarso desapareceu em 12 de julho de 1971, após ser capturado no Rio de Janeiro por agentes do DOI-CODI do I Exército. Relatos de Inês Etienne Romeu, outra ex-presa política, indicam que ele foi levado ao centro clandestino conhecido como “Casa da Morte”, em Petrópolis, onde foi submetido a diversas sessões de tortura.

Inês relatou que Paulo de Tarso foi torturado por 48 horas, sendo submetido a métodos brutais, como o pau-de-arara e a ingestão forçada de sal, enquanto pedia água. Investigações da Comissão da Verdade revelaram que os corpos de presos políticos executados na Casa da Morte eram esquartejados para dificultar a identificação.

Responsabilidade do Estado

Durante a cerimônia, a ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Janine Melo, fez o pedido oficial de desculpas, reconhecendo a responsabilidade do Estado nas graves violações de direitos humanos durante a ditadura.

Janine enfatizou que o momento é essencial para que o país possa acessar a história de Paulo de Tarso e de outras vítimas. “O seu desaparecimento representa uma das faces mais cruéis da violência praticada pelo Estado durante a ditadura militar”, afirmou.

Ela destacou que a ausência de respostas sobre o destino de Paulo de Tarso ainda impede a família de exercer plenamente seu direito ao luto. A ministra também ressaltou que o ato faz parte de uma série de iniciativas do ministério voltadas à reparação simbólica das vítimas e ao fortalecimento das políticas de memória e verdade no Brasil.

A reitora da UnB, Rozana Naves, lembrou das agressões sofridas pelas universidades durante a ditadura e enfatizou que a memória de Paulo de Tarso defende a liberdade de pensamento e a autonomia acadêmica.

Rozana destacou que a defesa da liberdade acadêmica e do pensamento crítico são legados essenciais para a construção democrática do país. “Estar aqui hoje é reconhecer uma ausência, mas também uma presença que nos convoca a defender a liberdade, a justiça e a democracia”, concluiu.