Centenas de pessoas se reuniram em um clube no coração de Yerevan, Armênia, para um show de drag underground em meados de junho, evidenciando a crescente popularidade dessa forma de arte na capital. O evento, parte das celebrações do Mês do Orgulho, teve sua divulgação restrita por questões de segurança, sendo repassado principalmente por meio de boca a boca e histórias privadas no Instagram.

Historicamente, a Armênia apresenta uma má reputação em relação ao tratamento da comunidade LGBTQ, ocupando a 45ª posição no ranking da ILGA-Europe, que analisa a proteção legal para essas comunidades. Em 2012, um clube queer foi atacado com um coquetel molotov, e desde então, a repressão tem sido uma constante, com frequentes invasões policiais a bares que promovem eventos LGBTQ.

Desafios e Crescimento da Cena Drag

Leo, um dos organizadores do evento, declarou: “O drag é mais político na Armênia porque, honestamente, precisamos que seja.” Ele enfatizou que a prática se tornou uma questão de sobrevivência e afirmação, mesmo diante de ameaças de violência. Apesar do medo, a cena drag tem se expandido, impulsionada em parte pela invasão russa à Ucrânia em 2022, que fez com que questões de identidade e segurança se tornassem ainda mais urgentes.

Adriana, uma mulher trans de 28 anos, foi brutalmente assassinada em sua casa em 2023, um trágico lembrete da violência que ainda permeia a vida de pessoas LGBTQ na Armênia. Em 2018, um ataque em massa a membros da comunidade em Shurnukh ilustrou a hostilidade que muitos enfrentam.

Impacto da Emigração Russa e Mudanças Sociais

Desde o início da guerra na Ucrânia, a Armênia recebeu um fluxo significativo de imigrantes russos, muitos deles buscando escapar de novas leis anti-LGBTQ e da mobilização militar. Estimativas indicam que entre 35.000 e 55.000 russos se estabeleceram no país, contribuindo para uma mudança nas percepções sociais sobre a visibilidade queer. Molly, uma drag queen que deixou a Rússia, relatou que sua saída foi impulsionada por uma série de perseguições e ataques a locais onde se apresentava.

Apesar do aumento da aceitação, ainda existem limites claros. Leo observa que a aceitação de expressões queer é mais ampla para os russos do que para os armênios, que ainda enfrentam estigmas sociais. “É aceitável se você é russo, mas se você é armênio e faz isso, está trazendo vergonha para seu povo”, afirmou.

A situação dos espaços LGBTQ em Yerevan continua a ser precária. Mari Muradyan, proprietária de um bar que promoveu eventos drag, fechou as portas após uma série de invasões policiais. Ela também deixou a Armênia em busca de segurança na Holanda. As tensões entre a comunidade LGBTQ e a sociedade em geral permanecem altas, e o futuro da cena drag na Armênia ainda é incerto.