Um novo estudo conduzido pelo Environmental Change Institute (ECI) da Universidade de Oxford revela que as doenças espalhadas por insetos na Amazônia brasileira não estão distribuídas aleatoriamente, mas formam padrões regionais distintos relacionados ao uso da terra, economias rurais e mudanças ambientais.

A pesquisa, intitulada "A coocorrência de doenças transmitidas por vetores é moldada pela economia agrária e contextos socioambientais na Amazônia brasileira", foi publicada na revista Communications Earth & Environment. Os cientistas analisaram mais de 1,28 milhão de casos registrados de malária, dengue, doença de Chagas e leishmaniose entre 2015 e 2019.

Como o uso da terra afeta a sobreposição de doenças

Os achados indicam que essas doenças se agrupam em diferentes combinações, dependendo da forma como a terra é utilizada, que varia desde modos de vida baseados na floresta até agricultura intensiva e expansão urbana.

Em áreas florestais e rurais remotas, onde as comunidades frequentemente dependem da agricultura de pequena escala e do extrativismo, há uma maior probabilidade de ocorrência conjunta de malária e doença de Chagas. Essas regiões geralmente enfrentam pobreza e acesso limitado a cuidados de saúde.

Em contraste, áreas dominadas pela agricultura, expansão de pastagens, estradas e crescimento urbano apresentam padrões distintos, com dengue e leishmaniose cutânea (uma doença que causa feridas cutâneas duradouras) mais propensas a se sobrepor.

A leishmaniose visceral, uma forma mais grave da doença que afeta órgãos internos e pode ser fatal se não tratada, segue um padrão diferente. Esta condição está mais intimamente associada à pobreza urbana, interrupções ambientais como incêndios, extremos climáticos e economias ligadas à pecuária.

Fatores sociais e ambientais como motor de doenças

Os pesquisadores também descobriram que os padrões de doenças refletem condições sociais e ambientais mais amplas, em vez de serem impulsionados apenas pelos insetos que as transmitem.

O autor principal, Dr. Milton Barbosa, bolsista Marie Curie e professor assistente na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil, afirma que os riscos à saúde na Amazônia estão intimamente ligados ao uso da terra e ao desenvolvimento. "Diferentes formas de uso da terra e atividade econômica criam padrões de doenças variados na Amazônia. As doenças são moldadas não apenas por vetores insetos, mas por como as pessoas vivem e como as paisagens mudam ao longo do tempo", explica Barbosa.

A coautora Claudia Codeço complementa que a Amazônia deve ser vista como um mosaico de diferentes sistemas socioambientais. "Não existe uma Amazônia, mas muitas. Cada uma possui padrões distintos de uso da terra e mudanças ambientais, que influenciam o risco de doenças."

Os autores acreditam que os achados podem ajudar a melhorar a vigilância de doenças ao identificar áreas onde múltiplas enfermidades compartilham os mesmos fatores subjacentes, apoiando respostas de saúde pública mais integradas. Além disso, sugerem que políticas voltadas para a redução do desmatamento, melhoria das condições de vida e gestão do uso da terra podem trazer importantes benefícios à saúde pública, juntamente com ganhos ambientais.