Um estudo encomendado pelo governo revelou que as taxas de câncer renal na região da fábrica AGC Chemicals Europe, em Thornton-Cleveleys, Lancashire, estão acima do esperado. A pesquisa, divulgada no mês passado, vem à tona quinze anos após Liz Hurst, moradora local, ser diagnosticada com câncer renal aos 32 anos.

Hurst recorda que, ao receber o diagnóstico, os médicos não conseguiram explicar a causa, considerando a doença incomum para alguém de sua idade e sexo. A fábrica, que operou entre as décadas de 1950 e 2012, é acusada de ter liberado cerca de 49 toneladas do químico cancerígeno Pfoa, associado ao câncer renal.

Impactos da fábrica na comunidade

O Pfoa, ou ácido perfluorooctanoico, pertence a uma classe de substâncias conhecidas como Pfas, que não se degradam no meio ambiente, sendo frequentemente referidas como “químicos eternos”. A AGC Chemicals Europe adquiriu a fábrica em 1999, que utilizava o Pfoa na produção de PTFE, um material utilizado em revestimentos antiaderentes. O uso do Pfoa foi banido globalmente em 2020.

Embora o estudo tenha indicado taxas elevadas de câncer renal, não encontrou evidências de um agrupamento de casos ou associações ambientais que pudessem explicar as ocorrências. Especialistas, no entanto, expressaram preocupação com os resultados e sugerem que mais investigações e testes de sangue são necessários.

Histórias de residentes afetados

Hurst, que se considera uma vítima da contaminação, relembra os exercícios de segurança realizados na escola para casos de vazamentos químicos e seu trabalho em laboratórios da fábrica durante a juventude. “Eu só quero saber se isso causou meu câncer”, desabafa.

Outro morador, Alan Hodson, de 61 anos, cultiva hortas próximas à fábrica e relata que, após testes de solo, foi informado de que seus vegetais apresentavam níveis elevados de Pfoa, superando em sete vezes o limite estabelecido na Bélgica. Com a recomendação da Agência Ambiental (EA) para classificar a área como contaminada, a prefeitura anunciou a iminente desativação do loteamento.

Sam Hammond, que vive nas proximidades com seus cinco filhos, também teve sua propriedade identificada como contaminada, com níveis de Pfoa 40 vezes superiores aos limites recomendados. A situação se agrava, pois os ovos de pato que sua família consome diariamente contêm Pfoa em quantidades que superam em dez vezes o nível seguro europeu.

Os moradores expressam frustração com a falta de informações sobre os riscos à saúde e o impacto em suas vidas. A prefeitura de Wyre afirmou que todos os órgãos envolvidos estão comprometidos com a transparência e que a EA manterá os residentes informados assim que as conclusões formais forem alcançadas.

Enquanto isso, a AGC Chemicals Europe se defende, argumentando que não há evidências de um agrupamento significativo de câncer renal e que não participou dos exercícios de segurança mencionados. O caso levanta questões sobre a responsabilidade das indústrias em relação à saúde pública e ao meio ambiente.