Uma colônia de trinta-réis-de-bando, também conhecidos como andorinhas-do-mar, encontrou um local inusitado para reproduzir: um dos pilares da Terceira Ponte, que conecta Vitória a Vila Velha, no Espírito Santo. Essa espécie, que está na lista de animais ameaçados de extinção desde 2022, busca sobreviver em um ambiente urbano, onde quase 92 mil veículos passam diariamente.

O comportamento adaptativo dessas aves ocorreu após a epidemia de gripe aviária em 2023, que levou ao desaparecimento de milhares de indivíduos das ilhas onde costumavam nidificar, especialmente em Vila Velha. A adaptação, no entanto, trouxe novos riscos. Diferentemente das ilhas, os filhotes enfrentam a altura dos pilares, de cerca de seis metros, e muitos acabam caindo no mar antes de desenvolverem a habilidade de voar.

Desafios na sobrevivência dos filhotes

Pesquisadores, veterinários e voluntários estão monitorando a colônia durante a temporada reprodutiva, formando uma força-tarefa para acompanhar os ninhos e resgatar filhotes que caem. Eles também estão instalando estruturas de proteção para minimizar as perdas, uma preocupação crescente já que a população reprodutiva da espécie foi drasticamente reduzida no Espírito Santo.

O médico-veterinário Luiz Felipe Mayorga, diretor do Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (Ipram), destaca que a presença dos trinta-réis foi crucial para alertar o Brasil sobre a chegada da gripe aviária. “Graças a elas, não tivemos casos humanos da doença no Brasil, nem impacto na produção avícola”, afirma. No entanto, essa mesma espécie foi uma das mais afetadas pela epidemia, que reduziu a população de cerca de três mil aves para apenas 84 em um curto período.

Impactos da urbanização no habitat das aves

A perda de habitat devido à urbanização é um desafio significativo para várias espécies ameaçadas. Mayorga explica que, com a urbanização do litoral, as aves procuram se adaptar às novas estruturas criadas pelo homem. A Terceira Ponte, com seus 61 pilares, se tornou um novo lar para essas aves, que, por sua natureza, costumam formar grupos de filhotes que caminham juntos, conhecidos como 'creches'.

No entanto, a falta de espaço nos pilares aumenta o risco de quedas. Além disso, os filhotes, que não possuem a proteção oleosa das penas dos adultos, correm o risco de morte por hipotermia ao caírem na água. O monitoramento revelou também que alguns ovos foram abandonados, possivelmente devido a disputas por espaço durante o período de reprodução.

A força-tarefa mobilizada busca não apenas resgatar os filhotes, mas também entender as dinâmicas que levaram à escolha desse novo habitat, na esperança de garantir a sobrevivência de uma espécie cada vez mais ameaçada.