Com o aumento da população em situação de rua ao redor do mundo, muitos indivíduos têm buscado abrigo em parques e outros espaços verdes urbanos. No entanto, esses locais também são habitados por animais que vivem nas áreas urbanas, criando um cenário propício para interações potencialmente perigosas entre humanos e vida selvagem, como os coiotes. Essa situação não apenas expõe as pessoas em situação de rua ao risco de contrair doenças transmitidas por animais, mas também pode deslocar os animais de seus habitats.

Um estudo recente, realizado por pesquisadores, focou na relação entre comunidades de pessoas sem abrigo e a vida selvagem urbana, com ênfase nos coiotes em Edmonton. O artigo foi publicado na revista Frontiers in Ecology and the Environment.

O crescimento do conflito entre humanos e coiotes

Os coiotes, considerados um dos carnívoros mais bem-sucedidos da Antropoceno, adaptaram-se bem às cidades, mostrando uma notável capacidade de coexistir com os humanos. No entanto, essa convivência pode resultar em conflitos, que incluem danos a propriedades, transmissão de doenças e ataques a animais de estimação e, em casos raros, a pessoas.

Dados do Edmonton Urban Coyote Project indicam que os relatos de conflitos envolvendo coiotes na cidade estão em ascensão, abrangendo interações em que os animais intimidam, se aproximam ou atacam humanos e seus pets. As rigorosas condições de inverno em Edmonton foram fundamentais para a pesquisa, uma vez que a neve permite rastrear a atividade dos coiotes, revelando seus hábitos alimentares e locais de abrigo.

Três formas de conflito

Os pesquisadores identificaram três principais formas de conflito entre pessoas em situação de rua e coiotes:

  • Competição: Tanto os humanos quanto os coiotes buscam áreas seguras e afastadas de trilhas principais, o que resulta em um uso compartilhado dos mesmos espaços.
  • Alimentação: A dificuldade em armazenar alimentos e a acumulação de lixo nas áreas ao redor dos acampamentos tornam a comida humana um alvo fácil para os coiotes, que podem desenvolver hábitos alimentares prejudiciais à saúde.
  • Doenças: O acúmulo de fezes de coiotes em locais frequentados por pessoas em situação de rua representa um risco significativo, pois as fezes podem conter patógenos perigosos, como o Echinococcus multilocularis, que pode ser fatal para os humanos.

Estudos indicam que até metade dos coiotes em Edmonton pode estar infectada com esse parasita, aumentando a exposição de pessoas sem abrigo a doenças.

Possíveis soluções e intervenções

A solução ideal para esse problema seria acabar com a falta de moradia e as causas subjacentes. A pesquisa sugere que um estreitamento da relação entre renda e acesso à moradia beneficiaria tanto as pessoas quanto a vida selvagem. Além disso, é necessário promover intervenções imediatas que considerem o contexto local, como o suporte direto às pessoas em situação de rua e a conscientização de profissionais de saúde sobre as doenças transmitidas por animais.

Fomentar a coexistência entre humanos e vida selvagem nas cidades é um desafio complexo, que requer a consideração das desigualdades sociais como uma força ecológica. Para construir cidades mais saudáveis para todos, é fundamental abordar as circunstâncias que geram conflitos.