Em um cenário de recessão profunda, muitos argentinos, como Diego, um policial federal, têm buscado fontes de renda adicionais para suprir as crescentes despesas familiares. Após um turno de 12 horas, ele se torna motorista de aplicativo, uma prática cada vez mais comum entre os membros das forças de segurança no país.

A crise econômica, exacerbada pelas medidas de austeridade do presidente Javier Milei, fez com que a renda disponível para a população encolhesse, forçando muitos a contrair empréstimos para cobrir o básico, como alimentação. "Você pode ganhar cerca de 44.000 pesos em um turno extra na polícia ou 42.000 pesos em quatro horas como motorista. É uma questão matemática", explica Diego, que prefere não revelar sua identidade.

Aumento da Violência

Organizações de direitos humanos alertam que o aumento de policiais em atividades paralelas coincide com um crescimento em incidentes de violência. Dados do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels) indicam que 75% das mortes causadas por policiais utilizando suas armas ocorreram enquanto os oficiais estavam fora do expediente. Entre esses casos, 13% envolviam policiais atuando como motoristas de aplicativos.

Incidentes recentes incluem um policial que atirou em dois homens durante uma tentativa de assalto enquanto transportava passageiros e um outro que matou um adolescente em uma situação de confronto. Em um caso ainda mais trágico, um policial foi morto por um passageiro que tentou roubá-lo.

Condições de Trabalho Precarizadas

As queixas sobre salários e condições de trabalho têm levado muitos policiais a deixar suas funções. A insatisfação é evidente, especialmente considerando que muitos afirmam que seus rendimentos mal alcançam o limite de pobreza estabelecido pelo governo, de aproximadamente mil dólares mensais para uma família de quatro pessoas.

Victoria Darraidou, da Cels, destaca a gravidade da situação: "Policiais matam e morrem mais quando estão off-duty, devido ao uso imprudente de suas armas". A discussão sobre a proibição do porte de armas em atividades paralelas ganha força, com especialistas defendendo que essa medida poderia reduzir significativamente a violência.