A história da saúde mental é também a história das patentes 22 de julho de 2026, 6h33 Este artigo nasceu da leitura de uma observação lateral de Christian Dunker (2026), feita de passagem em uma coluna publicada no UOL dedicada principalmente a outro tema — a formação de psicanalistas no país. Em um único parágrafo, contudo, Dunker toca em algo que ultrapassa a psicanálise e alcança o direito da propriedade intelectual: a coincidência entre a perda de protagonismo dos antidepressivos clássicos e o término de suas patentes. A história da saúde mental pode ser lida como a sucessão de diferentes formas de compreender, tratar e explorar economicamente o sofrimento humano.
Em determinado momento dessa trajetória, as respostas ao sofrimento passam também a constituir objetos de determinadas tecnologias — que podem ser apropriadas econômica e juridicamente. Então, por que certos medicamentos parecem tornar-se obsoletos justamente quando deixam de ser protegidos por patentes? Ao longo da história, o sofrimento foi sucessivamente capturado por diferentes sistemas de interpretação e intervenção.
A religião atribuiu-lhe um sentido espiritual; a medicina o transformou em objeto clínico (Foucault, 2011); a indústria farmacêutica o converteu em alvo privilegiado da inovação terapêutica. E passou a ser objeto também de apropriação jurídica por meio da propriedade intelectual. Histórico no tratamento de saúde mental Em uma primeira etapa, no século 19, o sofrimento era institucionalizado.
A grande inovação não era um medicamento, mas a instituição. Como mostrou Foucault (2019), hospitais e asilos tornam-se centrais na administração da loucura. Sob uma perspectiva econômica, pode-se dizer que o valor passa a concentrar-se nessa organização institucional.
Porém, no século 20, em uma segunda etapa, ocorre uma mudança radical. Os medicamentos passam a ser objetos de patentes, fazendo surgir um novo objeto econômico que pode gerar exclusividade, royalties e blockbusters. Em uma terceira etapa, tivemos a chegada da digitalização.
É o início do século 21 e o tratamento deixa de depender exclusivamente da química, começam os aplicativos, terapias online, softwares clínicos, monitoramento digital, plataformas. O ativo econômico já não é apenas uma molécula, é também um software. Mas não acabou.
Ainda temos algo surpreendente na quarta etapa: os dados. Uma plataforma terapêutica não vende apenas consultas, mas coleta padrões emocionais, linguagem, frequência de crises, horários, hábitos, respostas. Surge um novo ativo.
Os dados treinam sistemas, melhoram algoritmos, criam novos produtos. O sofrimento passa a gerar dados. Que também são novos ativos que modelam os programas de IA.
É a quinta etapa, com a expansão dos modelos e agentes de inteligência artificial. E modelos são treinados e podem valer — em breve — trilhões de dólares (a Anthropic ultrapassou a OpenAI em maio de 2026, levantando uma rodada a uma avaliação de US$ 965 bilhões). Patente em saúde mental A observação de Christian Dunker (2021; 2026) permite formular uma questão propriamente jurídica.
O que efetivamente acontece com a inovação em saúde mental quando termina a exclusividade conferida por uma patente?
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