O fenômeno climático conhecido como "super" El Niño, caracterizado por temperaturas da superfície do mar acima da média, já está causando impactos significativos nas indústrias pesqueiras em diversas partes do mundo. Em menos de um mês desde seu início, países como Peru e Índia enfrentam desafios distintos em suas atividades pesqueiras.

Impactos no Peru e na Índia

No Peru, autoridades governamentais cancelaram efetivamente a temporada de pesca de anchovas, que é um dos principais produtos de exportação do país e uma importante fonte de óleo de peixe e ração animal globalmente. Em contraste, o governo indiano está se preparando para uma temporada de captura de cavalas menores e menos abundantes.

Essas situações contrastantes ilustram como o fenômeno pode beneficiar e prejudicar diferentes segmentos da indústria pesqueira, levando à instabilidade para os pescadores, que se veem obrigados a considerar a diversificação sazonal. Além disso, os consumidores devem se preparar para variações nos preços de produtos pesqueiros essenciais.

Reações dos Especialistas e Efeitos Econômicos

Juan Carlos Sueiro, economista e diretor de pesca da organização não governamental Oceana Peru, comentou: "As pessoas estão preocupadas". Ele destacou que, com as mudanças climáticas, a frequência e a intensidade dos El Niños devem aumentar, intensificando a vulnerabilidade das indústrias pesqueiras.

O fenômeno, que ocorre a cada dois a sete anos no Oceano Pacífico tropical, foi nomeado por pescadores peruanos que notaram flutuações em suas capturas, com grandes declínios ocorrendo a cada poucos anos, geralmente ao redor do Natal. A dinâmica do El Niño afeta a movimentação das águas oceânicas, o que, por sua vez, impacta as populações de peixes.

Durante um El Niño, os ventos alísios que normalmente sopram do oeste diminuem ou até param, dificultando o processo de ressurgência que traz água fria e rica em nutrientes à superfície. Isso resulta em uma diminuição de algas, essenciais para espécies como as anchovas, que são forçadas a buscar alimento em águas mais profundas, tornando-se mais difíceis de capturar e afetando suas populações.

Em contrapartida, o fenômeno pode favorecer outras pescarias. Espécies de água quente, como o atum, frequentemente se deslocam para águas costeiras das Américas, onde a temperatura normalmente não é favorável.

As flutuações de preços de frutos do mar também são esperadas. Por exemplo, o salmão selvagem pode ter sua captura reduzida durante o El Niño, o que resulta em preços mais altos para os consumidores. No mercado local peruano, os preços de espécies como a cavala e a corvina já dobraram, fazendo com que muitas famílias optem por comprar mais frango.

Consequências Ambientais e Sociais

Além dos impactos econômicos, as mudanças na migração dos peixes podem afetar ecossistemas marinhos e até mesmo provocar conflitos geopolíticos, à medida que embarcações se aventuram em zonas econômicas exclusivas de outros países. Arnaud Bertrand, cientista sênior do Instituto Francês de Pesquisa e Desenvolvimento Sustentável, expressou preocupações sobre a sustentabilidade de espécies como o lula-humboldt, que são cruciais para os pescadores artesanais peruanos.

Ainda não se sabe ao certo como o fenômeno se desenvolverá nas próximas semanas e meses, mas a expectativa é de que os efeitos do El Niño sejam significativos, especialmente se as temperaturas continuarem elevadas.