O que é o El Niño e como ele pode afetar o seu dia a dia Um grupo de cientistas dos Estados Unidos publicou um estudo que soa quase como ficção científica, mas que nasceu de uma tragédia real. Os incêndios florestais que consumiram a Austrália no verão de 2019 para 2020, conhecidos como "Black Summer", lançaram tanta fumaça na atmosfera que ela chegou a alterar o comportamento das nuvens sobre o Oceano Pacífico. O fenômeno, batizado por outra equipe de pesquisa em 2023, teria ajudado a resfriar as águas do Pacífico e contribuiu para a formação de uma La Niña que durou de 2020 a 2023.

📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Foi esse acaso climático que deu a pesquisadores dos Estados Unidos a ideia para o novo estudo, publicado recentemente na revista científica "Science Advances". A pergunta que eles quiseram responder: se a fumaça dos incêndios conseguiu "empurrar" o clima do Pacífico para o lado mais frio, seria possível repetir esse efeito de propósito — e usá-lo para enfraquecer um El Niño antes que ele cause estragos? 🌊 Entenda: O El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul).

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial. O fenômeno ocorre com frequência a cada dois a sete anos, tem duração média de doze meses e gera impacto direto no aumento da temperatura global. A La Niña é o oposto: um resfriamento dessas mesmas águas, com efeitos igualmente significativos, mas em direção contrária (entenda mais abaixo).

Imagens do satélite mostram variações no nível do mar em junho de 2026; áreas em vermelho indicando águas mais elevadas no Pacífico equatorial, sinal típico associado ao desenvolvimento do El Niño. Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA A técnica testada nos computadores se chama clareamento de nuvens marinhas (ou MCB, na sigla em inglês). A ideia é borrifar partículas de sal do mar na atmosfera para deixar as nuvens baixas mais brancas e mais refletivas, fazendo com que uma parte maior da luz do sol volte para o espaço em vez de esquentar o oceano.

É um tipo de geoengenharia solar, a mesma categoria de tecnologia que, até agora, era discutida sobretudo como ferramenta para conter o aquecimento global no longo prazo — e, por isso mesmo, sempre envolta em controvérsia. Usando um modelo climático de última geração, a equipe simulou o que teria acontecido se esse clareamento artificial de nuvens tivesse sido aplicado antes de dois dos El Niños mais fortes das últimas décadas: o de 1997-1998 e o de 2015-2016. O resultado, segundo os autores, foi animador do ponto de vista físico: a intervenção conseguiu, nas simulações, enfraquecer a força desses eventos — desde que fosse aplicada cedo o suficiente e por tempo suficiente.

"Uma das maiores preocupações sociais em torno da geoengenharia é o fato de que, se a usarmos para reduzir riscos climáticos de longo prazo, temos que aplicá-la continuamente, por tempo indefinido", explica Jessica Wan, pesquisadora que liderou o estudo e hoje é pós-doutoranda na Universidade de Chicago. "Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter alguns dos benefícios da geoengenharia sem precisar empregá-la indefinidamente." TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE O EL NIÑO: Quando foi o último 'super' El Niño?