Santiago de Compostela virou um importante ponto de peregrinações Getty Images Quarenta anos atrás um ainda inexpressivo escritor brasileiro percorreria, ao longo de três meses, os 800 quilômetros de uma das mais famosas rotas do Caminho de Santiago, do sul da França até a catedral de Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha. Este escritor era Paulo Coelho. E a experiência resultaria diretamente em dois de seus livros, O Diário de Um Mago e O Alquimista, e o alçaria ao primeiro panteão mundial dos best-sellers de literatura.

Para muitos, a fama que a obra de Coelho adquiriu contribui muito para que essa medieval rota de cunho cristão-católico se tornasse um ícone místico-pop da contemporaneidade. "Postar no Instagram é a principal motivação para quem faz o caminho hoje", comenta o jornalista Felipe Mortara, que em 2015 percorreu os 800 quilômetros entre a pequena cidade francesa de Saint-Jean-Pied-de-Port e Compostela. O boom é confirmado pelos números.

Se naquele ano Paulo Coelho foi um dos cerca de 2,5 mil peregrinos que fizeram a rota — conforme dados da arquidiocese local — agora o número anual de caminhantes e ciclistas que passam por ali ultrapassa os 500 mil. O Escritório do Peregrino, da Catedral de Santiago de Compostela, compila as estatísticas. Em 2025, foram 530.987 os que fizeram o caminho — 32% declararam que peregrinaram por um misto de razões culturais e religiosas, 44% somente por fé e 18% por motivos apenas culturais e turísticos.

No ranking das nacionalidades, brasileiros ocupam a 12ª posição. Foram quase 8,5 mil no ano passado. Espanhóis, obviamente que também pela facilidade geográfica, disparam no topo do levantamento, com 228 mil — seguidos pelos norte-americanos (44 mil), italianos (26 mil) e alemães (24 mil).

Mas para entender como foi que uma cidadezinha nos confins da Península Ibérica se tornaria, ainda na Idade Média, um ponto importantíssimo de peregrinação cristã, é preciso retroceder no tempo, compreender a importância de São Tiago — que é homenageado a cada ano no dia 25 de julho — para o cristianismo e, claro, lembrar como o período medieval foi muito rico em termos de lendas religiosas associadas a relíquias e milagres. Decapitado a mando de Herodes É praticamente um consenso que Tiago, também chamado de São Tiago Maior, foi uma figura histórica que realmente existiu. "Sua existência histórica encontra sólido fundamento nas fontes do cristianismo primitivo, especialmente nos evangelhos e no livro dos Atos dos Apóstolos", diz o escritor e teólogo J.

Alves, autor do livro Os Santos de Cada Dia. Teria vivido há 2 mil anos, na mesma região pesqueira da Galileia onde Jesus perambulava pregando e encantando multidões. Possivelmente nascido em Betsaida, foi pescador, assim como seu pai.

Conforme os relatos bíblicos, Tiago, seu irmão João e seu amigo Pedro foram os primeiros a largarem tudo para seguir aquele homem de fala cativante e apelo profético que era Jesus. O evangelista Marcos relata que os irmãos Tiago e João eram chamados por Jesus de "boanerges", palavra que significa "filhos do trovão". Este apelido seria decorrente do comportamento intempestivo de ambos.