Vozes femininas — Regina Lacerda: a universalidade do folclore goiano

Elizabeth Abreu Caldeira Brito

Regina Galvão de Moura Lacerda, nascida em 25 de junho de 1919 na Cidade de Goiás, destacou-se como uma figura central na preservação e interpretação do folclore goiano. Filha de Umbelino Galvão de Moura Lacerda e Zenóbia Santa Cruz Camargo Lacerda, Regina formou-se inicialmente no magistério e, durante a Segunda Guerra Mundial, fez o curso de Samaritana Socorrista.

Formação e Carreira

Após a transferência da capital de Goiás, Regina Lacerda se mudou para Goiânia a convite da primeira-dama Ambrosina Coimbra Bueno, onde se tornou uma profissional multifacetada. Ela graduou-se em Artes pela Escola Goiana de Belas Artes e também cursou orientação educacional e Administração Pública.

Regina exerceu diversas funções, incluindo professora em várias cidades goianas, diretora da Divisão de Expansão Cultural do Museu Zoroastro Artiaga e membro do Conselho Estadual de Cultura. Em 31 de janeiro de 1978, aposentou-se como técnica em Folclore pela Goiastur, dedicando sua carreira à salvaguarda dos saberes populares.

O engajamento de Regina Lacerda em “pintar a aldeia” dialoga diretamente com a premissa de Liev Tolstói de que o universal nasce do particular.

Pioneirismo no Folclore Goiano

Regina Lacerda foi a primeira mulher a ingressar na Academia Goiana de Letras, quebrando barreiras em um espaço predominantemente masculino. Sua contribuição ao folclore inclui a sistematização de vozes femininas historicamente silenciadas, o que a torna uma figura singular na literatura e na cultura goiana.

Em sua obra "Papa-ceia" (1968), Regina mapeia o campo folclórico goiano, mencionando autores homens que a precederam, mas ao mesmo tempo, reafirmando sua própria voz como a primeira mulher a interpretar e registrar o folclore da região.

Seu trabalho é reconhecido por sua abordagem etnográfica e literária, refletindo uma escuta profunda das vozes populares. O folclorista Alceu Maynard Araújo foi um mentor importante em sua trajetória, incentivando-a a se tornar representante de Goiás na Comissão Nacional de Folclore.

Regina Lacerda capa de livro sobre folclore 1 500 ok56

A arquiteta e pesquisadora Narcisa de Abreu Cordeiro a descreve como uma "fada do folclore", destacando a importância de suas contribuições para a preservação da cultura local. Regina Lacerda se dedicou a narrar histórias e memórias da Cidade de Goiás, especialmente de mulheres pobres e negras, conferindo uma nova dimensão à estética e à epistemologia do folclore.

Por meio de sua escrita, Regina Lacerda não apenas resgatou figuras do cotidiano, mas também transformou a cultura goiana em uma prática viva e relacional, alinhando seu trabalho com as perspectivas contemporâneas dos estudos culturais.