Após escapar de um conflito devastador, famílias sudanesas agora lutam contra a escassez de água em campos de refugiados no Chade, onde a esperança de retornar para casa diminui a cada dia.
No campo de refugiados de Goudrane, que abriga cerca de 50 mil sudaneses, os tanques de água estavam vazios há quatro dias quando um caminhão de água chegou. Centenas correram pela areia quente em direção ao veículo, onde um único galão cheio representava mais um dia de sobrevivência para muitas famílias. As mulheres na frente da multidão foram as primeiras a cair, gritando enquanto crianças se aglomeravam ao seu redor.
Rokhia Ibrahim, uma professora de 43 anos, observou seus alunos saírem com baldes vazios. “Menos de um ano atrás, vi crianças como elas morrerem de sede ao fugir de el-Fasher”, lamentou.
Cenário de crise hídrica
Em entrevista ao Al Jazeera, Ibrahim e outros refugiados relataram que a busca desesperada por água se tornou parte de uma odisséia que começou com sua fuga do Sudão. Desde abril de 2023, mais de 938 mil sudaneses deixaram o país em decorrência da guerra, e muitos vivem em campos superlotados no árido leste do Chade, onde a água disponível é inferior à quantidade mínima recomendada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
Na clínica médica do campo de Goudrane, mães jovens aguardam atendimento, enquanto o único médico do local enfrenta um problema que a medicina não consegue resolver sozinha. “Temos medicamentos para tratar infecções, mas sem água potável, não dá para tomar”, disse ele.
A organização humanitária francesa Solidarites International, que atua no Chade desde 2008, classificou a crise hídrica nos campos de refugiados do leste como uma das emergências mais urgentes enfrentadas no país. Segundo Thibault Henry, diretor da organização, a demanda por água está crescendo rapidamente e superando a capacidade das fontes existentes.
A fuga e os traumas persistentes
Com o aumento da violência no Sudão, novos refugiados continuam a chegar ao Chade, trazendo consigo cicatrizes físicas e psicológicas do conflito. No campo de trânsito de Adre, refugiados compartilharam relatos de ataques brutais por parte das Forças de Apoio Rápido (RSF) e grupos armados aliados.
Zahra Khamis, que escapou de el-Geneina, descreveu uma jornada marcada por violência extrema. Ela sobreviveu a um ataque violento, a repetidos bombardeios e a um ambiente onde a água e os alimentos eram escassos. “Conseguimos evitar os tiros e os drones até chegarmos à estrada, mas muitos morreram durante o trajeto”, contou.
A guerra, que já dura quatro anos, se espalhou por grande parte do Sudão, resultando em milhares de civis mortos e uma das maiores crises humanitárias do mundo, segundo a ONU. Enquanto isso, esforços internacionais para acabar com o conflito têm avançado pouco, e a esperança de retornar para casa está se esvaindo para muitos refugiados.
“Perdi meu marido e meu filho para a guerra”, disse Fatne Adam, de 53 anos, que vive no campo de refugiados de Metche há mais de três anos. “Um dia eu gostaria de voltar ao Sudão, mas só quando houver paz novamente”, finalizou.
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