No verão de 2022, o político grego Stelios Kouloglou estava à frente de uma investigação sobre o uso de spyware invasivo, que havia afetado líderes empresariais, autoridades policiais e políticos. Como membro da Comissão PEGA do Parlamento Europeu, criada para investigar o uso do infame spyware Pegasus, Kouloglou viajou para entrevistar vítimas e examinar casos de alto perfil. No entanto, no outono do mesmo ano, seu iPhone foi invadido pela mesma ferramenta de espionagem que ele estava analisando.
“Não esperava por isso”, afirmou Kouloglou, que atuou como deputado europeu de 2015 a 2024. Ao descobrir que seu dispositivo havia sido comprometido, ele expressou seu choque e indignação. “Ser membro da Comissão Pegasus investigando o Pegasus e ao mesmo tempo ser hackeado pelo Pegasus é algo realmente irresponsável”, disse.
Revelações preocupantes sobre a espionagem na Europa
A descoberta de que o telefone de Kouloglou foi alvo do spyware, desenvolvido pela empresa israelense NSO Group, foi divulgada na última sexta-feira pelo Citizen Lab da Universidade de Toronto. O relatório indica que é a primeira vez que um membro da Comissão PEGA é identificado como vítima do Pegasus durante suas investigações. Embora os pesquisadores não tenham evidências conclusivas sobre qual governo ou entidade estaria por trás dos ataques, eles ressaltam que tal violação poderia ter dado acesso a informações internas sobre as atividades e conclusões da comissão, comprometendo a confidencialidade parlamentar da União Europeia.
John Scott-Railton, pesquisador sênior do Citizen Lab, destacou a ironia do episódio, que evidencia a gravidade da situação da espionagem na Europa. “É temporada de spyware aberto sobre os legisladores da Europa”, afirmou. A NSO Group não retornou aos pedidos de comentários sobre as descobertas.
Impactos e consequências da invasão
A investigação sobre o uso do Pegasus e de outros softwares espiões em 2022 foi desencadeada em grande parte pelo Pegasus Project, que reuniu dados de um vazamento massivo da NSO Group. Esse projeto revelou a extensão do uso do Pegasus em todo o mundo, com pelo menos 180 jornalistas entre os alvos. Em meio a isso, a Grécia enfrentou um escândalo separado relacionado ao spyware Predator, que atingiu jornalistas e oficiais do governo.
O relatório do Citizen Lab sobre o ataque ao telefone de Kouloglou mostra que a utilização de spyware não apenas viola direitos fundamentais, mas também ameaça a segurança e a integridade do trabalho parlamentar. “É um ataque direto ao estado de direito”, afirmou a eurodeputada Saskia Bricmont.
Embora o estudo não tenha atribuído diretamente a responsabilidade ao governo grego, foram identificadas semelhanças entre os ataques a Kouloglou e aqueles direcionados a jornalistas e ativistas de língua russa e bielorrussa. Kouloglou denunciou que a invasão afetou sua vida pessoal e profissional, gerando preocupações sobre a privacidade e a luta contra a corrupção.
A Comissão PEGA propôs diversas recomendações para combater o uso abusivo de spyware, mas muitos membros expressaram frustração pela falta de ações concretas até agora. “A Europa enfrenta um grande problema de abusos com spyware, e nada foi feito”, disse Scott-Railton. “É uma vergonha para as instituições europeias.”
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