Um estudo recente conduzido por uma equipe interdisciplinar de geógrafos, agrônomos e arqueólogos revelou que as videiras antigas da região de Tigray, no norte da Etiópia, apresentam um valor genético e histórico significativo. A pesquisa investiga a continuidade de uma tradição de cultivo de uvas que pode ter suas raízes na antiga civilização aksumita, que prosperou entre 150 a.C. e 800 d.C.

Herança das Videiras de Tigray

A região de Tigray é reconhecida como um dos mais antigos cenários agrícolas da África, onde diversas culturas, como grãos e leguminosas, foram cultivadas ao longo dos séculos. No entanto, a história das videiras na região é menos conhecida. Os pesquisadores buscaram determinar se as videiras atuais poderiam ser descendentes de variedades cultivadas na antiguidade.

As videiras em Tigray não são cultivadas em vinhedos, mas sim em pátios de casas, jardins comunitários e terrenos de igrejas. Os moradores consomem as uvas frescas, compartilham com vizinhos e doam para igrejas ortodoxas. Em vez de serem compradas, muitas dessas videiras são propagadas a partir de estacas trocadas entre famílias ao longo das gerações.

Resultados da Pesquisa

Os pesquisadores identificaram uma linhagem distinta, chamada Rubaksum Tsellim, que possui afinidade com variedades mediterrâneas. Essa linhagem é considerada um landrace, ou seja, uma variedade local mantida por agricultores ao longo do tempo, moldada por seleção e troca. Os resultados indicam que essas videiras podem ter características valiosas para a viticultura resiliente ao clima, sendo capazes de prosperar em condições áridas e em terrenos rochosos.

A pesquisa envolveu levantamentos de campo, entrevistas com agricultores e análises de DNA, abrangendo uma área de 1.269 km². Os cientistas encontraram 41 videiras, sugerindo a existência de cerca de 1.000 a 1.500 videiras maduras na região. Um exemplar em Rubaksa, um vilarejo isolado, foi destacado por sua longevidade, com moradores afirmando que sua presença remonta a décadas.

As análises genéticas revelaram que a videira de Rubaksa não apresentou correspondência com bancos de dados internacionais, mas mostrou afinidades com variedades tradicionais do Mediterrâneo e do Cáucaso, reforçando a ideia de que essas plantas são remanescentes de uma tradição vitícola antiga.

A Importância da Conservação

A preservação dessas videiras é crucial não apenas por seu valor histórico, mas também por sua resiliência genética. Em um contexto de mudanças climáticas, as variedades tradicionais podem conter características que ajudam a enfrentar a seca e outras adversidades. A recente guerra em Tigray prejudicou a agricultura local, levando muitos agricultores a abandonar suas videiras, o que aumenta o risco de extinção dessas linhagens únicas.

A pesquisa sublinha o papel vital dos agricultores como guardiões da biodiversidade agrícola. Sem a contribuição contínua das comunidades locais, essa herança biocultural poderia se perder.